Língua Presa · Quarta Parede

Terminei “Através das Oliveiras”

Terminei “Através das Oliveiras”, de 1994, do Kiarostami. Os filmes dele, de certa forma, me lembram “Relato de um Certo Oriente”, do Milton Hatoum. Se no livro o escritor troca de narrador em meio a um parágrafo sem aviso prévio, ou seja, uma perspectiva se quebra e uma nova assume o controle, nos filmes do Kiarostami não sabemos até que ponto a história é real ou somente ficção. Essa aproximação limítrofe entre ficção e realidade é o que torna não só os filmes dele, mas o cinema como um todo, em algo tão fascinante.

Comecei com o clássico “Close-Up”, de 1990, depois vi “Gosto de Cereja”, de 1997, sendo esse o filme do iraniano que mais atingiu meu coração. Assisti sua aventura japonesa “Um Alguém Apaixonado”, de 2012, que não é tão cativante assim, e “Através das Oliveiras” é algo que vai além do cinema em si. É a confusão que nos causa quando questionamos se é a arte que imita a vida ou o inverso.

Agora quero desbravar ainda mais a carreira desse gênio da sétima arte.

Direto do Forno · Música

Tentando Manter a Calma Após a Tempestade

Tô bem não. Esse time acaba com a minha sanidade. Não aguento mais perder tempo e neurônios com essa droga de Atlético, essa relação doentia de amor e ódio por um clube. Mas o mundo da música não dá um tempo, por isso trago algumas novidades das últimas semanas.

Quando recebo notificação de lançamento da Fuzz Club Records, eu nem leio o nome do artista e vou logo ouvir, porque sei que não vou me decepcionar. A qualidade desse selo é sem igual, e com a Breanna Barbara não foi diferente.

A artista lançará seu segundo disco, Nothin’ But Time, em 28 de outubro e a primeira fatia desse projeto é justamente a primeira faixa da tracklist, “Diamond Light”. Um rock’n’roll dançante bem pegada anos sessenta, lembrando bastante o som da Tess Parks, sua parceira de selo, mas menos lisérgico.

A próxima novidade me emocionou e não foi pouco.

A cantora Gloria de Oliveira e o produtor musical Dean Hurley se juntaram para a criação de um álbum, o que parece ser a primeira colaboração entre eles. Oceans of Time sairá pelo selo Sacred Bones no dia 16 de setembro.

Ontem saiu o segundo single desse projeto, chamado “Something To Behold”, um shoegaze de primeira, daqueles bem feitos mesmo, com camadas e camadas de guitarras e sons ao fundo, acompanhantes da bela voz angelical da cantora. Mas foi o primeiro single, lançado lá em julho, que me cativou.

Porque trata-se de uma releitura de “All Flowers In Time Bend Towards The Sun”, canção de Jeff Buckley com sua então namorada, Elizabeth Fraser (Cocteau Twins, Massive Attack), nunca lançada de forma oficial. Essa música atinge meu peito de uma forma muito precisa, pois ela é crua, poética e as vozes dos dois juntos casam muito bem.

O bom é que Dean Hurley e a Gloria de Oliveira mantiveram a melodia original da canção quase que intacta, apenas diminuíram o seu andamento e adicionaram elementos de sintetizadores que deram um tom melancólico ainda mais gostoso à ela.

Quero ver alguém ouvir isso e não bambear as pernas e sentir os pelos dos braços se arrepiando.

Direto do Forno · Música

Dead Cross – Reign of Error (Single)

Imagino que fãs e amigos do Mike Patton ficaram preocupados quando ele anunciou, em setembro do ano passado, uma pausa no calendário do Faith No More e do Mr. Bungle, devido a problemas com sua saúde mental. Na mesma proporção, veio o alívio com seu retorno, já que Patton postou em sua conta no Instagram o anúncio do próximo álbum do Dead Cross.

O novo disco, intitulado somente como II, foi anunciado em 19 de julho e será lançado em 28 de outubro, pela Ipecac. Seu primeiro single é a pesadíssima (novidade?) “Reign of “Error”, acompanhada de um vídeo macabro e divertido, cheio de pessoas mortas e um mundo pós-apocalíptico ao fundo.

Espero que o Mr. Patton esteja bem e que ele continue nos brindando com seus projetos musicais por muitos e muitos anos ainda.

Língua Presa · Traduções

Encontre Os Outros

Tradução livre da citação de Timothy Leary, “Encontre Os Outros”:

“Admita. Você não é como eles. Nem perto disso. Você pode, ocasionalmente, se vestir como eles, assistir os mesmos programas idiotas na televisão como eles, talvez até comer as mesmas comidas de fast food.

Mas parece que quanto mais você tenta se encaixar, mais você se sente um estranho, assistindo as “pessoas normais” em suas existências automáticas.

Para cada vez que você diz frases convencionais como ‘tenha um bom dia’ ou ‘o tempo está péssimo hoje, hein?’, você anseia por dentro, querendo dizer coisas proibidas como ‘me diga algo que te faz chorar’ ou ‘o que você pensa sobre o déjà vu?’.

Veja, você quer conversar com aquela mulher no elevador. Mas e se ela e o careca que passa pela sua sala no trabalho estão pensando a mesma coisa? Quem sabe o que você pode aprender por arriscar e ter uma conversa com um estranho? Todo mundo carrega uma peça do quebra-cabeça. Ninguém entra em sua vida por mera coincidência.

Acredite em seus instintos.
Faça o inesperado.
Ache os outros.”

Língua Presa · Quarta Parede

Sobre “Titane”, da Julia Ducournau

A gente reclama que hoje em dia só sai remake e filme de herói, mas aí quando surgem ideias originais, o que fica no hype são bombas como “Titane” (2021). Que filme terrível.

O que é uma pena, pois o documentário de estreia da diretora, “Junior”, de 2011, e seu segundo longa-metragem, “Raw”, de 2016, são ótimos.

“Titane” é mais um caso daqueles filmes classificados como “diferentes”, “não-convencionais”, “desconfortáveis”, “para poucos”, “bizarros” e não sei o que mais, mas que são apenas chatos mesmo.

Difícil acreditar que esse filme levou o prêmio máximo no Festival de Cannes.

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #25: Foi Só Elogiar…

Elogiei tanto a postura do time no jogo de ida, que a frustração ao ver o jogo hoje foi inexplicável.

Com tanta munição que o time deles nos deu nessa última semana, ver um time apático e sem vontade desse dentro de campo foi inadmissível.

Uma pena que o futebol premia os mais arrogantes, mas a falta de atitude do Atlético foi determinante para a eliminação. O Flamengo nem esforço fez, e se quisesse, teria feito mais gols.

Esse time não merece a torcida que tem. E já deu pro Turco, né? Com ele, o time é só ladeira abaixo.

Agora olho para o céu e pergunto pro meu pai: por quê? Por que me fizestes gostar dessa praga?

Direto do Forno · Música

Guided By Voices – Lizard On The Red Brick Wall (Vídeo)

Não me canso de escrever sobre o Guided By Voices, assim como o Robert Pollard não se cansa de criar canções. Já perdi as contas de quantos álbuns saíram nos últimos anos.

“Lizard On The Red Brick Wall” é a primeira faixa do Tremblers And Goggles By Rank, que saiu do forno sexta passada. Ainda não ouvi o disco completo, mas queria destacar essa música em específico, porque é uma das melhores que a banda lançou nesses últimos trabalhos.

Ela possui um riff pesado, sujo e grudento, bem acompanhado pela bateria, baixo e a voz cada vez mais rouca de Pollard. O vídeo também é um agrado à parte, psicodélico como as capas dos álbuns, mas bem produzido, em contraste com a produção lo-fi das músicas.

O Guided By Voices entrou naquele panteão em que coloco Nick Cave e os Bad Seeds e o Deftones: artistas cujos trabalhos vão ficando cada vez melhores com o passar dos anos.

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #24: Não Tem Nem Comparação

Após a segunda derrota seguida para o Galo, o Gabriel, que não jogou nada em nenhum dos dois jogos, disse à televisão que lá no Maracanã “eles vão saber o que é inferno, o que é pressão”. Hulk respondeu que no elenco do Galo não tem menino, que os jogadores são experientes e acostumados a jogar em ambientes desfavoráveis .

No último final de semana, Gabriel fez 1×0 para o Flamengo contra o América-MG e mesmo assim ouviu vaias da torcida. Em entrevista, disse que o time só estava ganhando por causa dele e que a relação dele com a torcida é de briga, mas dormem juntos. Ou seja, debochou daqueles que estão lá para apoiar o time.

Enquanto isso, no Mineirão, Hulk assistia apreensivo o jogo entre Galo x Fortaleza, direto das arquibancadas, já que não fora relacionado por estar tratando de uma lesão. A câmera da transmissão acompanhou de perto as reações do atacante, que foi da tristeza enquanto o jogo estava 0x2 para o Leão Nordestino, para a euforia da virada no último lance.

Enquanto o Gabriel precisa de um time bem organizado (ou do Bruno Henrique) para se destacar, o Hulk é quem pega o time do Atlético pelas mãos e faz a engrenagem girar. Mesmo fora de campo.

Não tem nem comparação.

Língua Presa · Quarta Parede

Sobre o recente “Pleasure”, da Ninja Thyberg

Assisti com a minha namorada e levantamos alguns pontos:

-O tanto de homem que ficou milionário às custas dessas mulheres, os famosos “agentes”;

-A diferença de tratamento no set de filmagem quando a equipe é composta totalmente por homens, e quando é uma equipe comandada por uma diretora;

-O que mais me causou incômodo: a cena de “sexo violento”. Quando Bella vai conversar com o agente dela após a cena, chorando e reclamando que foi abusada e ele diz que tudo foi consentido, que ela é quem pediu para fazer cenas pesadas e etc… Eu vejo sentido na fala dele, até porque ela fez mesmo tal pedido, mas até que ponto o consentimento da atriz permite que os caras podem fazer o que quiser? Será que não existe um limite para tais “atuações”?

Ficam os questionamentos.

No mais, achei a protagonista meio… sem alma. Sem uma motivação convincente. O que achei mais interessante mesmo foram os bastidores da indústria, desde o início amador ao glamour das grandes produções.