Crônicas · Língua Presa · Música

Oeste Baiano Inglês

Hoje a cidade está dominada pela água, pela lama e pelas nuvens acinzentadas.

Uma chuva da porra no oeste baiano. Durou a noite inteira e parece estar mais forte agora pela manhã. A rua parece um rio, um rio de lama.

Tive que parar para abastecer, por isso atrasei para o trabalho. O cartão não passou, fiquei assustado e sem entender. Tem limite no crédito, mas mesmo assim não foi. Tive que passar no débito. Cem reais de gasolina. Nem quinze litros.

Quando tocou “Miss America” no carro, lembrei de Alta Fidelidade, do Nick Hornby. Aquele clima nebuloso inglês, onde a história se passa, combinou com a música. Fez mais sentido ainda porque li o livro em uma época nebulosa de minha vida. O que não faz sentido é eu associar o nebuloso com algo triste, já que dias nublados são perfeitos para mim.

Li em algum texto que ela é uma canção “Syd-Barrettiana”, algo assim, e isso também faz todo sentido. É só ouvir o The Madcap Laughs (1970).

Se o Blur quis homenagear os ingleses em Modern Life Is Rubbish (1993), em “Miss America” eles conseguiram representar um dos nomes mais importantes da história da música deles.

Um oeste baiano inglês. Quem diria.

Crônicas · Língua Presa · Música

Airbag

É engraçado como nossa mente nos prega peças a todo instante e como é fácil cair em suas armadilhas.

Penso bastante em acidentes de carro, ainda mais quando estou dentro de um. Quando algum conhecido vai viajar, seja pelo ar ou estrada, imagino o veículo desfigurado, em colisão, despedaçado. É automático, não faço de propósito. Pode ser que o nome disso seja trauma, já que foi assim que perdi minha mãe.

Dia desses fui buscar minha tia fora da cidade com sua caminhonete, dessas de câmbio automático e que uma leve pisada no acelerador a faz quase voar. Assim que entrei no carro, imagens de acidente tomaram conta da minha cabeça. Cenas em que eu batia atrás de caminhões, de frente, atropelava cães, só tragédia. Aos poucos fui me adaptando àquele carro que não costumo dirigir, até que o domei. Peguei o jeito, senti confiança no volante e fui embora na maior adrenalina, acelerando sem medo, ultrapassando os caminhões (com prudência, óbvio), até chegar no destino.

Outra pessoa que também tem fixação por acidentes é o Thom Yorke. No catálogo do Radiohead, de bate pronto, lembro de duas músicas que falam sobre isso, “Airbag” e “Killer Cars”.

Isso me lembrou um texto que escrevi há alguns anos, chamado Gravidade, onde falei sobre a experiência de encarar o medo em um parque de diversões.

Encarar a si mesmo e superar. Ser um pouco melhor do que era há poucos segundos atrás. Não há sensação igual.

Crônicas · Língua Presa · Música

Tjú, tjú

Estávamos os cinco no quarto com a luz apagada, dois sofás, com dois em cada um e eu deitado no chão. Era meio da madrugada e o cansaço falava alto. Uma delas deu a ideia de colocar música e escolheu “Svefn-g-englar”, do Sigur Rós.

Até então, eu só conhecia o Sigur Rós pelo Kveikur, de 2013, mas nada tão aprofundado. Depois dessa madrugada, isso mudou.

Nos dez minutos de duração de “Svefn-g-englar”, um silêncio absoluto. Me soltei de vez no chão e observei. Uma parecia entediada, ou estava apenas cansada, mas seus olhos não fecharam. A que colocou a música, em transe, movimentando os lábios, como se cantasse junto, mesmo que a música seja em islandês. Do lado da entediada, a outra pessoa estava apenas quieta, não parecia prestar atenção. E a que estava do lado de quem escolheu a música, ela deitou e fechou os olhos, sonhando acordada naquele som que mais parecia o ressoar de uma divindade nórdica.

Lendo comentários no Youtube sobre o vídeo abaixo, o mais comum é “essa é a canção que quero em meu funeral”, mas achei um que define bem o que sinto ao ouvir “Svefn-g-englar”. Eu, que não possuo fé alguma, vejo-a como “deus em forma de música”.

Crônicas · Língua Presa · Música

Falando Sobre O Kevin

A mãe do Kevin fez um curso de corte de cabelo e eles me convidaram para ser uma das cobaias. Claro que fui, quase não saía nas noites de meio de semana e seria uma oportunidade para viver algo diferente.

Isso foi em 2004, 2005, por aí.

Queria entender como minha mente resgatou essa lembrança em pleno trânsito infernal das cinco da tarde, naquela loucura de setas, troca de faixas, buzinas, ultrapassagens e tudo mais. Porque não é algo marcante na minha vida, pelo contrário, eu quase nem lembrava mais disso. Até que, de repente, bum!, apareceu.

Minha amizade com o Kevin foi relâmpago. Frequentei muito sua casa para jogar Playstation, sua família me tratava quase que como um parente. Até que ele se mudou para os EUA (como quase todo mundo de Governador Valadares), sem nenhum aviso e perdemos contato por completo.

Como diria Eddie Vedder, “memories, like fingerprints are slowly raising…”.

Crônicas · Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #21: Morre a Última História de Amor do Futebol

Torço por uma reviravolta, mas já houve até um anúncio oficial: Messi está fora do Barcelona. O maior jogador da história do clube procurará outra casa após vinte e um anos de serviços prestados. Tantas jogadas geniais, gols antológicos, provocações, polêmicas e títulos empilhados ficarão somente nas lembranças dos fãs e nos arquivos da história desse esporte tão mágico.

Não consigo imaginar um mundo onde Messi e Barcelona não estarão mais lado a lado. Será muito estranho vê-lo com uma camisa diferente.

Morreu hoje a última história de amor do futebol.

Crônicas · Língua Presa · Música

Proteção

Foi no final de 2011 que tivemos Sky pela primeira vez. A morte recente de meu pai deixou um silêncio ainda maior na casa, e a TV por assinatura caiu muito bem para tirar um pouco o tédio. Conheci Seinfeld, não perdia nenhum episódio (passava de segunda à sexta na Sony) e até hoje é minha comédia favorita de todos os tempos. Também fiquei viciado na PlayTV e seus programas sobre música e videogames.

Em um desses programas, o canal convidava algum artista para apresentar cinco videoclipes de seu agrado, independente do estilo. Um dos convidados foi o Paulão, da Velhas Virgens, e logo de cara ele mandou “Protection”, do Massive Attack. Foi minha porta de entrada ao universo nebuloso do Trip Hop.

Tracey Thorn, do Everything but the Girl, é quem canta. Sua voz é doce, tranquila e melancólica, casando bem com os versos, que a depender de quem interpreta, é sobre relacionamentos, pequenos gestos amorosos e coisas nesse sentido. No instrumental, um simples riff de guitarra é repetido por todos os seis minutos da música, assim como a bateria, fora alguma ou outra virada e alguns efeitos eletrônicos. O videoclipe é um plano-sequência mostrando os integrantes da banda em seus apartamentos fictícios, em momentos que retratam a vida comum. Uma janta, uma conversa, uma brincadeira.

É início de noite da última quarta-feira e “Protection” começa a tocar em meus fones. O pôr-do-sol está do lado contrário, pessoas vêm e vão e lá no final da pista, um casal se abraça. Passei por eles.

“I can’t change the way you feel,
but I could put my arms around you.”

Fiquei pensando se era apenas coincidência.

No domingo, às 5 da manhã, estava voltando de Barreiras, cansado, mas sem sono. Mesmo sendo um trajeto curto, parece que as cidades não chegam nunca, seja na ida ou na volta. E apesar do horário, nada de claro no céu. Na entrada de Luis Eduardo, “Protection” mais uma vez. Repeti a música várias vezes até chegar em casa.

“I stand in front of you,
I’ll take the force of the blow.”

Cheguei em casa, guardei o carro e fui mexer no celular para desligar o som. Olhei para a foto da tela bloqueada por alguns segundos. Eu, com cara emburrada, e minha mãe, talvez com o sorriso mais lindo que já vi, em 1990 alguma coisa.

Proteção. Entendi.

Crônicas · Garimpo · Língua Presa · Música

Os Sinos Dobram Para o Einstürzende Neubauten

As corridas/caminhadas de fim de tarde sempre rendem algum tema para escrever. São momentos onde a cabeça passeia com o movimento dos carros, pessoas, as paisagens e tudo mais que aparece pelo caminho. E claro, com as músicas que ouço.

Ontem, exatamente às 18 horas, passei em frente à igreja do Jardim Paraíso e o sino começou a badalar. Ao mesmo tempo, tocava no celular “Feurio!”, uma música do grupo alemão Einstürzende Neubauten, conhecido pelo seu som altamente experimental, cheio de barulhos, metais, instrumentos próprios e tudo mais que você imaginar.

“Feurio!” é uma canção barulhenta e os badalos do sino começaram, acredite, a acompanhar o que tocava em meus ouvidos. Mais ou menos com um minuto e meio, a voz do Blixa Bargeld ganha um volume mais alto e ecoado, e foi entre cada eco desses que os badalos apareceram e causaram um temor ainda maior na experiência.

Será difícil repetir, talvez até impossível, mas se ouvir essa música, tente imaginar. É uma loucura.

Crônicas · Diversos · Língua Presa · Música

Final de Filme

Ontem à tarde eu e meu amigo Zé fomos levar o Pretinho para a casa nova dele. Dos nove filhotes que nasceram, ele era o mais querido, e até quem não gosta de cachorro, como o Zé, criou um certo apego nele. Ele era muito atentado, queria brincar o tempo todo, irritava seus pais e comia igual um leão.

No trajeto até seu novo lar, Pretinho conheceu a rua pela primeira vez. Observou os carros passando, as pessoas caminhando e o belo pôr-do-sol que essa cidade tem. No rádio do carro tocou “Someone Else’s Song”, do Wilco, uma canção só voz e violão com uma letra de amor boba, mas sincera, que fica ainda mais emocionante na voz de Jeff Tweedy.

Soma-se o contexto da adoção do Pretinho com a música e aquele momento ganhou um tom de despedida, uma emoção não nítida em nossas faces, mas que lá dentro ela ferveu. Pareceu uma cena final daqueles filmes onde tudo dá certo e as pessoas saem realizadas com um sorriso no rosto.

O Pretinho agora é Romeu e sua nova dona já até me mandou uma foto dele enrolado em um cobertor. Foram quarenta e cinco dias que ele, sem saber, alegrou a minha casa e a vida de alguns vizinhos, mesmo que por alguns poucos minutos.

Aquele pestinha vai longe.

Crônicas · Língua Presa · Música

Essa tarde me senti em Encontros e Desencontros

Tem quase uma década que moro no oeste baiano e até hoje não digo que gosto daqui por completo. Longe disso. Sinto que não pertenço a esse lugar.

A essa hora, todos devem saber que o my bloody valentine assinou com a Domino Recordings e que há dois dias os discos da banda estão de volta ao streaming. Desde então, perdi as contas de quantas vezes ouvi o Loveless de cabo a rabo.

Precisei fazer uns corres para a empresa no final da tarde. Atravessei a cidade até o distrito industrial, e para isso, é preciso pegar a BR. Na direção do pôr do sol. A trilha sonora de todo o caminho foi o Loveless.

No instante que começou a tocar “Sometimes”, lembrei da cena de Encontros e Desencontros onde Charlotte e Bob voltam para o hotel de táxi, em uma madrugada movimentada de Tóquio.

Me senti como se estivesse no filme. A diferença é que Bob observava as luzes dos outdoors, postes, carros e tudo mais. Eu, ao contrário, tinha em frente somente a luz natural. Aquele céu gigantesco, que mesmo tão distante, parece conversar com quem o observa.

Eu não gosto daqui, mas admito: poucos lugares tem o pôr do sol tão belo quanto Luís Eduardo Magalhães.

Crônicas · Diversos · Língua Presa · Quarta Parede

Poema de “Paterson”

Poema de Amor

Nós temos muitos fósforos em nossa casa.
Sempre estamos com eles em mãos.
No momento, nossa marca preferida é Ohio Blue Tip,
mas antes gostávamos da marca Diamond.
Isso foi antes de descobrirmos os fósforos da Ohio Blue Tip.
São caixinhas resistentes, pequenas, com rótulos azul-marinho, azul-celeste e brancos,
com palavras escritas no formato de um megafone,
como se fosse para gritar ainda mais alto ao mundo:
“Aqui está o mais lindo fósforo do mundo,
de 3,8cm de pinho macio
com uma cabeça roxa-escura granulada, tão contida e furiosa
e teimosamente pronta para entrar em chamas,
acendendo, talvez, o cigarro da mulher que você ama
pela primeira vez, e nunca foi realmente a mesma coisa
depois disso.
Tudo isso daremos à você.”
Isso é o que você me deu. Eu me torno o cigarro e você o fósforo,
ou eu me torno o fósforo e você, o cigarro,
chamuscando com beijos que ardem na direção do paraíso.