Direto do Forno · Garimpo · Música

Garimpo: Dark Sky Burial

O Dark Sky Burial é o projeto paralelo de Shane Embury, multi-instrumentista e baixista de longa data do Napalm Death. Se nas quatro cordas ele atordoa seus ouvintes na banda de metal extremo, aqui ele é capaz de fazer o mesmo, mas com uma abordagem diferente.

Com uma mistura de música eletrônica e industrial, passeando também pela ambient music, o Dark Sky Burial chega a ser mais acessível que o próprio Napalm Death, apesar de também ser bastante experimental e causar estranhamento aos ouvidos não tão acostumados com barulhos hipnóticos em alguns momentos, e incômodos noutro.

No início do mês saiu Vincit Qui Se Vincit, o terceiro disco do Dark Sky Burial, contendo nove canções. O interessante é ouvi-las em sequência, como se fosse uma única e longa peça instrumental.

Crônicas · Língua Presa · Música

Falando Sobre O Kevin

A mãe do Kevin fez um curso de corte de cabelo e eles me convidaram para ser uma das cobaias. Claro que fui, quase não saía nas noites de meio de semana e seria uma oportunidade para viver algo diferente.

Isso foi em 2004, 2005, por aí.

Queria entender como minha mente resgatou essa lembrança em pleno trânsito infernal das cinco da tarde, naquela loucura de setas, troca de faixas, buzinas, ultrapassagens e tudo mais. Porque não é algo marcante na minha vida, pelo contrário, eu quase nem lembrava mais disso. Até que, de repente, bum!, apareceu.

Minha amizade com o Kevin foi relâmpago. Frequentei muito sua casa para jogar Playstation, sua família me tratava quase que como um parente. Até que ele se mudou para os EUA (como quase todo mundo de Governador Valadares), sem nenhum aviso e perdemos contato por completo.

Como diria Eddie Vedder, “memories, like fingerprints are slowly raising…”.

+Filmes · Diversos · Língua Presa

Trecho de Entrevista com Kieslowski

“Morto em 19 de junho de 2019, o crítico de cinema Rubens Ewald Filho entrevistou inúmeras figuras importantes ao longo de extensa carreira. Resgatamos aqui sua entrevista com o cineasta polonês Krzysztof Kieslowski no Festival de Cannes de 1994, quando apresentava a terceira parte de sua Trilogia das Cores, A Fraternidade é Vermelha, também seu último filme. Kieslowski acabava de anunciar sua aposentadoria.

R: Acha que já disse tudo que queria em seus filmes?

K: Não é esse tipo de problema… Eu só estou muito cansado, e, como disse, não sou fã de cinema. É só minha profissão. E se tenho a oportunidade de parar, eu paro.

R: A Fraternidade é Vermelha teve excelente reação de crítica, que amou. Isso pode mudar algo?

K: Gosto que as pessoas gostem de meus filmes, porque faço para elas. Os críticos também são parte do público.

R: Por que você escolheu a Suíça, Genebra, para a ação do filme?

K: Porque é dinheiro francês e é um país que fala francês. Podíamos ter feito na Bélgica, mas preferia a Suíça porque a história pertence a esse país.

R: E as coincidências no filme, personagens se reencontrando. Quase uma marca sua. Por quê?

K: Porque acontece muito isso em nossa vida e notei, vi, senti isso. Por isso coloquei no filme. Todos [os filmes da Trilogia das Cores] são diferentes porque são histórias diferentes. O primeiro é um tipo de drama, uma tragédia até. O segundo é uma comédia, o terceiro não sei classificar, não sei bem o que é, mas os críticos farão isso, dirão do que se trata, eu aprenderei…

R: Vai acreditar neles?

K: Não importa. Mas alguém vai rotulá-lo. Mas eu não posso, não sei.

R: O que faz em seu tempo livre?

K: Nos últimos anos não tive tempo livre. Nenhum.

R: Porque tem se falado muito em sua aposentadoria. Realmente se decidiu?

K: Sim…

R: Você vai se aposentar…

K: Já me aposentei.

R: Mas o que um cineasta faz quando se aposenta?

K: Nada, eu espero…

R: Você vai para sua casa e…

K: Você é brasileiro, sabe disso, você gosta da vida. Eu também… Gosto de usar a vida.

R: Cuidar do jardim? Você tem hobbies?

K: Tudo. Respirar, relaxar… tudo.

A entrevista está no material extra do DVD de A Liberdade é Azul (Versátil Home Vídeo). Kieslowski morreu em março de 1996, aos 54 anos. A Fraternidade é Vermelha saiu de Cannes sem nenhum prêmio. Na ocasião, Pulp Fiction ganhou a Palma de Ouro.”

Retirei o trecho acima de um comentário no Filmow feito pelo usuário Rafael Amaral.

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William Basinski – Music for Abandoned Airports: Tegel

Lançado em março de 1978, Ambient 1: Music for Airports, do Brian Eno, é um dos discos de ambient music mais conhecidos e influentes já feitos. Composto por quatro longas peças, ganhou notoriedade com o passar dos anos, sendo literalmente executado até em alguns aeroportos. Ideal para momentos de leitura, pensamento e até mesmo para o silêncio.

Citando Brian Eno de forma direta como inspiração para essa obra, William Basinski resgatou de seus arquivos Music for Abandoned Airports: Tegel, referência clara ao seu precursor.

Com quase vinte minutos de duração, a diferença é que o trabalho de Basinski é levado para um lado mais soturno, não chegando a ser incômodo, mas tomado de melancolia. Seria como contemplar o silêncio em alguma localidade gótica, um castelo, para ser mais exato, passeando ao lado do Conde Drácula e ouvindo os seus lamentos sobre a dor da vida eterna que tanto o assombra (isso no Nosferatu do Werner Herzog).

Music for Abandoned Airports: Tegel foi composta em 1998, mas só saiu do baú no último dia 6.

Direto do Forno · Música

Guided By Voices – My (Limited) Engagement (Single)

Não é brincadeira. O Guided By Voices já anunciou mais um disco. O segundo só em 2021, o quinto desde o ano passado.

It’s Not Them. It Couldn’t Be Them. It Is Them! sairá pela Rockathon Records, do próprio Robert Pollard, em 22 de outubro. O single “My (Limited) Engagement” está disponível para os ouvintes. Ouça.

É isso. Não tenho mais o que acrescentar.

Crônicas · Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #21: Morre a Última História de Amor do Futebol

Torço por uma reviravolta, mas já houve até um anúncio oficial: Messi está fora do Barcelona. O maior jogador da história do clube procurará outra casa após vinte e um anos de serviços prestados. Tantas jogadas geniais, gols antológicos, provocações, polêmicas e títulos empilhados ficarão somente nas lembranças dos fãs e nos arquivos da história desse esporte tão mágico.

Não consigo imaginar um mundo onde Messi e Barcelona não estarão mais lado a lado. Será muito estranho vê-lo com uma camisa diferente.

Morreu hoje a última história de amor do futebol.

Crônicas · Língua Presa · Música

Proteção

Foi no final de 2011 que tivemos Sky pela primeira vez. A morte recente de meu pai deixou um silêncio ainda maior na casa, e a TV por assinatura caiu muito bem para tirar um pouco o tédio. Conheci Seinfeld, não perdia nenhum episódio (passava de segunda à sexta na Sony) e até hoje é minha comédia favorita de todos os tempos. Também fiquei viciado na PlayTV e seus programas sobre música e videogames.

Em um desses programas, o canal convidava algum artista para apresentar cinco videoclipes de seu agrado, independente do estilo. Um dos convidados foi o Paulão, da Velhas Virgens, e logo de cara ele mandou “Protection”, do Massive Attack. Foi minha porta de entrada ao universo nebuloso do Trip Hop.

Tracey Thorn, do Everything but the Girl, é quem canta. Sua voz é doce, tranquila e melancólica, casando bem com os versos, que a depender de quem interpreta, é sobre relacionamentos, pequenos gestos amorosos e coisas nesse sentido. No instrumental, um simples riff de guitarra é repetido por todos os seis minutos da música, assim como a bateria, fora alguma ou outra virada e alguns efeitos eletrônicos. O videoclipe é um plano-sequência mostrando os integrantes da banda em seus apartamentos fictícios, em momentos que retratam a vida comum. Uma janta, uma conversa, uma brincadeira.

É início de noite da última quarta-feira e “Protection” começa a tocar em meus fones. O pôr-do-sol está do lado contrário, pessoas vêm e vão e lá no final da pista, um casal se abraça. Passei por eles.

“I can’t change the way you feel,
but I could put my arms around you.”

Fiquei pensando se era apenas coincidência.

No domingo, às 5 da manhã, estava voltando de Barreiras, cansado, mas sem sono. Mesmo sendo um trajeto curto, parece que as cidades não chegam nunca, seja na ida ou na volta. E apesar do horário, nada de claro no céu. Na entrada de Luis Eduardo, “Protection” mais uma vez. Repeti a música várias vezes até chegar em casa.

“I stand in front of you,
I’ll take the force of the blow.”

Cheguei em casa, guardei o carro e fui mexer no celular para desligar o som. Olhei para a foto da tela bloqueada por alguns segundos. Eu, com cara emburrada, e minha mãe, talvez com o sorriso mais lindo que já vi, em 1990 alguma coisa.

Proteção. Entendi.