Garimpo · Língua Presa · Música · Quarta Parede

Wilco – How to Fight Loneliness (Ao Vivo no Late Night with Conan O’Brien, 1999)

Em 1999, o Wilco lançou um de seus melhores discos, o Summerteeth. Para divulgá-lo, como de praxe, a banda rodou por alguns programas de TV e claro, passou pelos talk shows mais famosos da época.

No mesmo dia que eles foram ao Late Night with Conan O’Brien, a convidada da noite era ninguém menos que Winona Ryder, mas isso não foi apenas coincidência. A atriz protagonizou o drama Garota, Interrompida e a canção “How To Fight Loneliness” faz parte da trilha sonora do filme. Muito gentil com os caras, foi Winona quem deu as boas-vindas a Jeff Tweedy e cia, com direito a um grande elogio:

“Uma das melhores e mais importantes bandas do século e minha banda favorita.”

Depois dessa, eles não precisavam de mais nada, né?

Língua Presa · Quarta Parede

Abertura de Gummo

Algumas experiências cinematográficas não demandam explicação, elas apenas são sentidas. Foi o caso de Gummo, quando vi esse trecho pela primeira vez.

Gummo é um drama experimental de 1997, dirigido por Harmony Korine, o mesmo cara que escreveu o roteiro do Kids (1995). A história se passa em Xenia, estado de Ohio, uma cidade tão cinzenta quanto a mente de seus habitantes. Suicídio, dependência química e abusos mentais/sexuais são alguns dos temas abordados de forma crua e realista, o que pode ser perturbador e chocante para alguns espectadores. Ao meu ver, isso só engrandece o brilhantismo de Harmony Korine na condução do filme.

Logo de cara, na abertura, somos apresentados ao garoto-coelho, um dos personagens mais marcantes. A musiquinha alegre contrasta diretamente com o olhar vazio do garoto, que joga um pouco de tempo fora em uma passarela durante um dia chuvoso. Ele chuta lixo, cospe e faz xixi nos carros lá embaixo, quebra a quarta parede olhando direto para a câmera, enquanto congela de frio.

A carga emocional do filme é pesada, com cenas que nos fazem questionar o que é certo e o que é errado. Mas nesse pequeno pedaço, por um instante, a doce melancolia do garoto-coelho é capaz de tocar quem assiste de uma maneira um pouco mais leve.

Crônicas · Diversos · Língua Presa · Quarta Parede

Poema de “Paterson”

Poema de Amor

Nós temos muitos fósforos em nossa casa.
Sempre estamos com eles em mãos.
No momento, nossa marca preferida é Ohio Blue Tip,
mas antes gostávamos da marca Diamond.
Isso foi antes de descobrirmos os fósforos da Ohio Blue Tip.
São caixinhas resistentes, pequenas, com rótulos azul-marinho, azul-celeste e brancos,
com palavras escritas no formato de um megafone,
como se fosse para gritar ainda mais alto ao mundo:
“Aqui está o mais lindo fósforo do mundo,
de 3,8cm de pinho macio
com uma cabeça roxa-escura granulada, tão contida e furiosa
e teimosamente pronta para entrar em chamas,
acendendo, talvez, o cigarro da mulher que você ama
pela primeira vez, e nunca foi realmente a mesma coisa
depois disso.
Tudo isso daremos à você.”
Isso é o que você me deu. Eu me torno o cigarro e você o fósforo,
ou eu me torno o fósforo e você, o cigarro,
chamuscando com beijos que ardem na direção do paraíso.

Quarta Parede

Trecho de “Close-Up”, do Abbas Kiarostami

Trecho do julgamento do Hossain Sabzian:

“Cada vez que me sinto triste na prisão, penso no verso do Corão que diz: diga o nome de Alá e o teu coração será confortado. Mas não sinto conforto nenhum. Sempre que estou deprimido ou transtornado, sinto o desejo de gritar ao mundo a angústia da minha alma, os tormentos que passei, todas as minhas tristezas, mas ninguém as quer ouvir. Eis que chega um homem que retrata todo o meu sofrimento nos seus filmes e posso vê-los mais de uma vez. Eles mostram o rosto maligno daqueles que brincam com a vida dos outros, o rico que não presta atenção às necessidades materiais básicas do pobre. Foi por isso que me senti compelido a procurar consolo naquele roteiro. Li-o, e ele traz calma ao meu coração. Diz as coisas que desejei ter expressado.”

Close-Up, Abbas Kiarostami, 1990.

Música · Quarta Parede

Não Sou Nada

Calma, não é o poema do Fernando Pessoa.

Caindo Na Real, de 1994, é um dos meus filmes favoritos, muito mais pela nostalgia do que pela qualidade técnica, e é, ao lado de Singles – Vida de Solteiro, aquele que melhor representa a essência da Geração X. O vazio existencial, as dúvidas sobre qual carreira seguir, sobre o que ser no futuro, trabalhos, relacionamentos e mais um monte de responsabilidades que a vida adulta, em tese, exige, são os principais questionamentos dos personagens principais desse filme, que é a estreia de Ben Stiller na direção.

Tanto que a canção “I’m Nuthin'”, executada pelo ator Ethan Hawke em uma das cenas, relata justamente esse buraco a ser preenchido naqueles que estão na casa dos vinte e poucos anos. Sem falar que a trilha sonora do filme também tem “Turnip Farm”, um petardo do Dinosaur Jr. em que J. Mascis destrói na guitarra em solos que parecem ser impossíveis de se criar uma tablatura.

Mas minha cena favorita é o breve passeio entre Troy (Ethan Hawke) e Lelaine (Winona Ryder), regado a café, cigarros e uma boa conversa (como ele mesmo diz no famoso diálogo “This is all we need: a couple of smokes, a cup of coffee and a little bit of conversation. You and me and five bucks”), onde ambos divagam sobre o que serão deles dali a alguns anos. Posso estar errado, mas sei lá, parece que naquele tempos as coisas eram mais simples.

Crônicas · Diversos · Língua Presa · Quarta Parede

O Povo Contra Larry Flynt

Uma provocação:

Larry Flynt é um dos nomes mais poderosos do entretenimento adulto estadunidense (Quando digo entretenimento adulto, leia pornografia pesada mesmo, não precisa ficar com vergonha.) É o fundador da LF Publications, cujo carro-chefe de maior nome é a revista Hustler. O filme é de 1996, mas a história acontece nas décadas de 70 e 80, retratando o início de sua trajetória e suas duras batalhas contra o lado conservador americano, que queria proibir a distribuição de sua revista. Flynt até sofreu um atentado de um louco da supremacia branca, fato esse que o deixou paraplégico.

Porém, o foco principal é o famoso imbróglio judicial entre ele e um pastor lá que o acusou de difamação e outras coisas. Para sua defesa, Flynt abraçou um trecho da lei americana que protege o direito do cidadão de expressar-se livremente, e era isso que incomodava os puritanos, que questionavam como uma revista “suja” circulava assim pelo país sem nenhum pudor, com o risco de poluir a mente das criancinhas e blábláblá. Interessante ressaltar aqui que até seu advogado dizia que não era apoiador da revista Hustler e dos outros conteúdos produzidos pela empresa, mas que defenderia sempre o direito da livre expressão das pessoas.

Agora, estamos em 2020 e essa história parece que jamais envelheceu. Do contrário, só piorou. Aquele pessoal que se considera puro e correto até hoje faz suas artimanhas para atacar o que não os convém. O caso da Natura é um ótimo exemplo, e não, não uso Natura e nem sei qual o cheiro daqueles trem. A questão é que eles se incomodaram com a figura usada na propaganda, mas nos bastidores dessas casas tão bonitas e limpas, sabemos bem muito do que acontece.

Imagine um cenário onde Larry Flynt seria candidato à presidência do Brasil sil sil. Qual lado o apoiaria, a direita defensora dos bons costumes (duvido muito) ou a esquerda festiva (como diria Vitor Brauer) que muda suas lutas todo dia, que o usariam como arma de combate e logo buscariam podres do cara (que com certeza devem existir) para derrubá-lo em seguida?

Quarta Parede

Sobre “In The Mood For Love”

Escrevi no Filmow.

“In The Mood For Love encanta pelos seus mínimos detalhes. Os pingos de chuva no chão, os sapatos em atrito com o solo, a fumaça do cigarro, as passagens de silêncio e solidão dos protagonistas, etc. Não conheço outro diretor que trabalhe tão bem as emoções humanas como Wong Kar-Wai.

Se Chungking Express, um dos meus filmes favoritos, extrai sua beleza daquele frenesi de iluminações e movimentos do centro de Hong Kong, In The Mood For Love tem na sutileza e na elegância jazzística todo o seu charme.”

Música · Quarta Parede

Carros Assassinos

Foi numa madrugada de segunda para terça, se não me engano, quando estava zapeando pela SKY, sem sono, e dei a sorte de pegar o Crash – Estranhos Prazeres (1996), do David Cronenberg, logo em seu início, ainda nas apresentações de elenco e equipe técnica. Sem dúvida alguma, é o filme mais bizarro que já assisti até hoje.

Cenas de sexo. Carros. Acidentes de carro. Cenas de pessoas fazendo sexo em carros acidentados. É basicamente isso. Não é um filme ruim, a experiência em assisti-lo foi interessante. A trilha sonora dá um ar de mistério ao filme, os personagens são charmosos e enigmáticos e tem algo nas cores dele que mexeu comigo, mas a história em si e o modo em que ela é contada é um pouco sem pé nem cabeça.

Alguns dias depois, lembrei que o Radiohead tem duas canções que se assemelham a um dos temas do filme: acidentes de carro. São elas “Airbag” (uma das minhas favoritas de toda a discografia deles) e “Killer Cars”, um b-side do The Bends, época que a banda ainda usava umas guitarrinhas distorcidas.

Quarta Parede · Traduções

Akira Kurosawa sobre Roteiro

“O que mais me estressa nos diretores aspirantes que batem à minha porta é isso:

‘É muito caro fazer um filme nos dias de hoje e é difícil virar um diretor.’

É preciso aprender e experimentar várias coisas para se tornar um diretor e não é tão fácil de se conseguir. Mas se você realmente quer fazer filmes, então escreva roteiros. Tudo o que você precisa é papel e lápis. Somente ao escrever roteiros se aprende aspectos da estrutura do filme e o que é o cinema.

Isso é o que os digo, mas eles ainda assim, não escrevem. Acham difícil demais. E é. Escrever roteiros é um trabalho árduo. Porém… Balzac disse para escritores e também para novelistas, que o mais essencial e necessário é a paciência ao encarar a chatice de escrever uma palavra por vez. Essa é a primeira exigência para qualquer escritor. Quando você analisa a obra de Balzac com isso em mente, é ainda mais impressionante, porque ele produziu um volume de trabalhos que não seríamos capazes de terminar de ler durante nossas vidas. Sabe como ele os escreveu? É interessante. Ele os rabiscava e enviava para a impressão logo em seguida. Uma página era impressa em uma folha de papel enorme. Quando recebia de volta as páginas impressas, ele fazia revisões na margem, até restar bem pouco do escrito original. Depois, enviava essas revisões para a impressão. É uma ótima forma de trabalhar, apesar de ser meio difícil para o tipógrafo. Ele era capaz de produzir bastante por causa desse método. Esse pode até ter sido o ingrediente, mas o mais essencial foi ter a paciência de escrever uma palavra por vez até chegar ao tamanho que queria.”

Diversos · Língua Presa · Quarta Parede

Poema de “Spartacus”

“Quando o sol ardente se opõe no horizonte oeste,
Quando o vento das montanhas se acalma,
Quando o canto do sabiá-do-campo cessa,
Quando os gafanhotos do campo não crepitam,
Quando a espuma do mar descansa como uma donzela
e o crepúsculo toca o contorno da terra suspensa,
Volto para casa.

Por sombras azuis e florestas púrpuras,
Volto para casa.

Volto ao lugar onde nasci.
À mãe que me deu à luz e ao pai que me ensinou
Há muito, muito tempo,
Muito tempo.

Agora, só.
Perdido e sozinho num mundo distante e vasto.

Ainda assim, quando o sol ardente baixa,
Quando o vento se acalma e a espuma do mar dorme
E o crepúsculo toca o contorno da terra,
Volto para casa.”