Garimpo · Música

Dave Navarro – Rexall (Ao Vivo no Conan O’Brien, 2001)

Trust No One é o único disco solo do Dave Navarro, um dos meus heróis da guitarra, membro fundador do Jane’s Addiction, guitarrista do Red Hot Chili Peppers por alguns anos e apresentador do Ink Master.

Lançado em 2001, o álbum possui uma forte carga emocional, com letras que abordam o casamento conturbado do músico com a atriz Carmen Electra, seu problema com as drogas e traumas do passado (como a perda da mãe quando ele ainda era uma criança).

O disco não teve uma forte divulgação e até hoje passa despercebido por muitos de seus admiradores. Por isso a surpresa ao encontrar uma apresentação ao vivo dele no talk show do Conan O’brien, no ano do lançamento do álbum. A música escolhida foi a faixa de abertura, “Rexall”.

A qualidade não está tão boa, assim como a performance do músico e sua banda, mas vale pela curiosidade e, de certa forma, como arquivo.

O próprio artista já disse em entrevistas que não pensa em se arriscar em outro projeto solo, por ser exaustivo. Tanto que poucos anos depois ele já estava novamente no Jane’s Addiction para o lançamento de Strays (2003). Mas Trust No One garante que Navarro teria capacidade de produzir mais materiais solo de qualidade, caso quisesse.

Garimpo · Música

Garimpo: Oasis e Stereophonics – I’m Only Sleeping (Beatles Cover, Ao Vivo, 2000)

Na virada do milênio, o tradicional canal de televisão britânico Channel 4 produziu um show em tributo à John Lennon, com a participação de vários artistas e celebridades, no palco e na platéia.

Uma das atrações foi a junção de parte do Oasis com Kelly Jones, vocalista do Stereophonics. Eles fizeram uma versão de um dos maiores clássicos da discografia dos Beatles, “I’m Only Sleeping”, do disco Revolver, de 1966.

A voz de Jones encaixou muito bem com a sensação de preguiça que a música passa, juntamente com os backing vocals do irmão Gallagher e o solo quebrado do baixo a cada fim de estrofe. Uma bela e justa homenagem.

Língua Presa · Música · Traduções

CAN – Disco “Live in Stuttgart 1975” Exemplifica a Espontaneidade e Impacto do Lendário Grupo Alemão

(Tradução livre do artigo de Daniel Dylan Wray, postado no blog do Bandcamp em onze de junho de 2021.)

“Com o CAN, havia sempre uma sensação de algo inacabado ou em construção, mas não perfeitamente polido, ainda mais nos shows ao vivo”, diz Irmin Schmidt, o único membro fundador remanescente da banda alemã de rock experimental.

Schmidt, 83 anos, está refletindo sobre o legado da banda, enquanto uma nova série de discos ao vivo é lançada, sendo o primeiro o Live In Stuttgart 1975. Composto por cinco faixas, com cada uma variando entre nove e trinta e cinco minutos, o álbum captura sete anos de existência da banda – já tendo passado dois vocalistas, Malcolm Mooney e Damo Suzuki, e agora operando como uma unidade instrumental feroz e hipnótica.

Misturando ritmos jazzísticos com riffs explosivos de rock psicodélico e grooves infinitos e imprevisíveis, a banda – que sempre tocou sets improvisados – tenta aproveitar tanto o caos quanto a coesão do álbum. “Quando ouço gravações antigas, se são boas, consigo ouvi-las como se tivessem sido criadas por outra pessoa”, diz Schmidt. “Não há nenhum tipo de sentimento ou nostalgia. Embora se eu ouvir algo que não deu certo e não for bom, sinto algo desconfortável, porque você pensa: ‘que merda’, e às vezes, se for muito ruim, rola uma vergonha.”

Não há nenhuma vergonha a ser descoberta em Live In Stuttgart 1975, ainda bem. É um documento gravado que captura de forma perfeita a dicotomia que tanto caracterizou o CAN, uma banda que poderia soar muito precisa ou amplamente expansiva, ambas com o mesmo fôlego. Vinda de Colônia e formada pelo quarteto principal Schmidt, Holger Czukay, Michael Karoli e Jaki Liebezeit, o grupo tinha uma vasta experiência. Schmidt estudou composição na Rheinische Musikschule, assim como Czukay, enquanto Liebezeit estava no free jazz europeu e Karoli era um multi-instrumentista que havia tocado em um monte de bandas antes. “Não éramos apenas um grupo de amigos”, diz Schmidt. “Alguns de nós nem se conhecia até o momento que juntei esse pessoal. Minha ideia para o grupo era que esses membros deveriam vir de tradições diferentes. Queríamos fazer um grupo onde todas essas partes pudessem existir por si mesmas.”

Não eram apenas as diversas bagagens musicais que fizeram do CAN um grupo diferenciado no início, mas a sua atitude. Eles tomaram um antigo cinema chamado Inner Space Studio e criaram seu próprio mundo para desaparecer. “A Alemanha já estava um pouco longe do desenvolvimento que acontecia em lugares como a Grã-Bretanha e América”, diz Schmidt. “Então havia uma sensação de isolamento, e também um certo senso de estar isolado de outros grupos alemães, porque uma banda pode estar em Berlim, outra em Hamburgo, mais outra em Munique. Não havia uma capital como Londres, onde todo mundo na cena se conhecia. O efeito que isso teve foi que nos tornamos eremitas, e isso se tornou algo bastante original. Não fomos expostos à uma influência diária de outras tendências, e isso foi algo consciente – não queríamos seguir nenhuma tendência.”

Durante a trajetória original da banda, entre 1968 e 1979, foram lançados onze álbuns. Mesmo que todos possuam momentos mágicos – do épico de vinte minutos “You Doo Right” (reduzidos de uma improvisação de seis horas) em seu disco de estreia ao inesperado hit disco “I Want More” (do álbum Flow Motion) – foram os quatro discos em sequência: Tago Mago, Ege Bamyasi, Future Days e Soon Over Babaluma que tornaram a banda uma referência em experimentação e inovação para muitos grupos. Embora classificados como uma banda de Krautrock junto com o Neu! e o Kraftwerk, esses grupos tinham poucas semelhanças em comum, a não ser a determinação em romper novos caminhos sonoros. O CAN fundiu rock, jazz avant-garde e psicodelia, sustentando-os em marcas suntuosas, criando um som que continua distinto ao ponto de ser inimitável.

Apesar do toque livre e despretensioso da banda, que os levou a evitar regras pré-estabelecidas, eles assumiram essa mente aberta com uma fortitude rigorosa e uma leal ética de trabalho, muitas vezes ensaiando por doze horas diárias. “Era tudo muito espontâneo no estúdio”, relembra Schmidt. “Ninguém entrava e dizia: tenho uma ideia para uma música. Isso não existia. Mas após um tempo, um groove ou um riff poderiam surgir e seriam o caminho para construir uma peça. Um certo riff pode te trazer ideias para centenas de possibilidades, mas ele estabelece uma regra. Então, quando tocávamos no estúdio, estávamos atrás da perfeição dessas regras. Era comum que aperfeiçoássemos um certo groove repetindo-o e repetindo-o, talvez por horas ou por dias, até termos a sensação de ‘é isso'”.

Esse processo era a arte em si tanto quanto, senão mais, do que o produto final, sugere Schmidt. “Você pode passar anos assim. Um dia você tem que dizer ‘ok, já é o bastante.’ Isso às vezes gerava uma discussão, porque Jaki era sempre convencido de que poderia melhorar. Ele gostaria de continuar. Mas no processo de aperfeiçoamento, isso poderia virar algo totalmente diferente. Você precisa ter o espírito do processo de criação. É algo bem misterioso, quando digo que não está realmente pronto. A essência dessa música que fizemos é sobre como existem milhares de possibilidades, e o caminho que você decide pegar não é para resultar em uma peça composta e perfeita, é sobre o processo de transformar isso tudo uma peça.”

O casamento da espontaneidade com a execução afiada, combinado com uma inovadora edição de fitas para condensar as sessões de gravação, resultou em alguns dos trabalhos mais surpreendentes do Can. “Faixas como ‘Future Days’ ou ‘Halleluwah’ são fortemente editadas a partir de várias horas de gravação”, diz Schmidt. “Embora, inicialmente, o Jaki sentisse que se poderia destruir o groove na edição, Holger e eu o educamos com as técnicas da Stockhausen, que editava fragmentos de milhares de pequenos trechos. Jaki fez suas pazes com a edição e crescemos como uma banda.”

Esse senso de fluidez continuou até o palco, com seus shows improvisados. Eles até brincavam com trechos das músicas favoritas do público, mas os enterravam profundamente com seus grooves pulsantes. Um show com os maiores sucessos nunca fora cogitado e era visto visto como um conceito absurdo; ao invés disso, as apresentações ao vivo existiam como uma extensão do processo criativo. “Íamos ao palco sem faixas prontas e criávamos músicas na hora, tornando tudo tão cheio de incertezas e fragmentos. Esse é o mistério da coisa, elas (as canções) foram criadas no momento de tocá-las. Claro, naquela hora você não pode ser um perfeccionista – a espontaneidade exclui a perfeição. Para mim, esse é o elemento de toda grande arte do século 20 – essa fatalidade iminente que a torna, de certa forma, inacabada.”

Image courtesy of Spoon.

E será que a plateia sempre tolerava os shows ao vivo que duravam por horas, e até por dois sets? “Eles percebiam logo de cara que estavam participando da criação de algo, de forma espontânea”, diz Schmidt. “Isso só é possível de se alcançar se a reação do público for de inclusão. Então, na maioria das vezes, mesmo que não funcionasse e não nos conectássemos, eles não agiam de forma agressiva ou com vaias. Eles tentavam ajudar no processo. Mesmo que o primeiro set fosse terrível, eles sempre estavam lá no segundo.”

O legado, impacto e influencia do CAN continua incalculável, moldando inúmeros artistas de múltiplas décadas – de Brian Eno ao The Fall, do Primal Scream ao LCD Soundsystem – mas como Schmidt enxerga isso? Ele se sente orgulhoso? “Orgulho não é a palavra certa”, diz ele calmamente. “Se você lança um trabalho artístico no mundo e ele existe cinquenta anos depois, é satisfatório. Significa que o que você fez foi válido. Por outro lado, existe um senso de que é algo natural, pois tive uma educação clássica. Desde cedo tenho ouvido músicas com centenas de anos de existência. Isso deve durar. Se for bom o bastante, dura.”

Direto do Forno · Música

Placebo – Surrounded By Spies (Single)

Parece que fantasmas do passado continuam a perseguir Brian Molko. Ou melhor, espiões.

Recheado de frases enigmáticas que remetem a conflitos de sua trajetória (“ex-drummer’s nose stuck in the past“, por exemplo), “Surrounded By Spies” é o segundo single do aguardado novo disco do Placebo, Nevet Let Me Go, previsto para março de 2022.

O nome do disco é um tanto quanto genérico, mas “Surrounded By Spies” captura bem a estética de um dos melhores momentos da banda, entre o Black Market Music (2000) e o Sleeping With Ghosts (2003).

Minha única implicância é com o visual do Brian Molko: pra que esse bigodinho?

Direto do Forno · Música

Failure – Headstand (Single)

Fui pego totalmente de surpresa pelo anúncio de Wild Type Droid, o próximo disco do Failure, anunciado pela própria banda na última semana. Será o sexto trabalho de estúdio deles. Mas o que não surpreendeu foi a qualidade do som.

O primeiro single já disponível é “Headstand” e caiu de imediato no meu coração. Melancólica e pesada na medida certa, ela lembra em vários momentos a “Another Space Song”, do Fantastic Planet, talvez o disco mais famoso dos caras, lançado em 1996.

Ali pela metade, a música dá uma quebrada e vira uma espécie de paisagem sonora de filmes pós-apocalípticos, criando uma ambientação que muito tem a ver com as temáticas do disco que citei no parágrafo anterior.

Em algumas audições, “Headstand” já virou uma das minhas favoritas do trio.

Crônicas · Língua Presa · Música

Airbag

É engraçado como nossa mente nos prega peças a todo instante e como é fácil cair em suas armadilhas.

Penso bastante em acidentes de carro, ainda mais quando estou dentro de um. Quando algum conhecido vai viajar, seja pelo ar ou estrada, imagino o veículo desfigurado, em colisão, despedaçado. É automático, não faço de propósito. Pode ser que o nome disso seja trauma, já que foi assim que perdi minha mãe.

Dia desses fui buscar minha tia fora da cidade com sua caminhonete, dessas de câmbio automático e que uma leve pisada no acelerador a faz quase voar. Assim que entrei no carro, imagens de acidente tomaram conta da minha cabeça. Cenas em que eu batia atrás de caminhões, de frente, atropelava cães, só tragédia. Aos poucos fui me adaptando àquele carro que não costumo dirigir, até que o domei. Peguei o jeito, senti confiança no volante e fui embora na maior adrenalina, acelerando sem medo, ultrapassando os caminhões (com prudência, óbvio), até chegar no destino.

Outra pessoa que também tem fixação por acidentes é o Thom Yorke. No catálogo do Radiohead, de bate pronto, lembro de duas músicas que falam sobre isso, “Airbag” e “Killer Cars”.

Isso me lembrou um texto que escrevi há alguns anos, chamado Gravidade, onde falei sobre a experiência de encarar o medo em um parque de diversões.

Encarar a si mesmo e superar. Ser um pouco melhor do que era há poucos segundos atrás. Não há sensação igual.

Direto do Forno · Música

Radiohead – Follow Me Around

“Follow Me Around” é a segunda música disponível da tão esperada coleção KID A MNESIA, do Radiohead, que sai do forno nessa semana. Ela foi lançada de forma oficial hoje.

Saíram duas versões: a de estúdio, acompanhada de um vídeo hilário estrelado por Guy Pearce, e outra ao vivo, durante a passagem de som de uma apresentação da banda no Japão, em 1998.

A música é inteira voz e violão e parece que a voz de Thom Yorke sai direto do céu, de tão bonita.