Direto do Forno · Música

Just Mustard – I Am You (Single)

Como é prazeroso, nos dias de hoje, com lançamentos saindo a todo instante, ouvir uma música que realmente te prenda e fique por horas e até dias rodeando sua cabeça.

Foi o caso de “I Am You”, novo single da Just Mustard, banda irlandesa cujo som passeia entre o pós-punk, o shoegaze e até pela música eletrônica.

Tudo bem que o baixo e a bateria dão o ritmo da canção, começando de forma lenta e crescendo de forma considerável com o passar do tempo, junto com a barulheira deliciosa da guitarra. Mas é o grande charme de todos esse caos é a voz hipnótica de Katie Ball, que até na parte mais “furiosa”, não perde a delicadeza.

Não há informações sobre um novo disco até o momento.

Garimpo · Música

Dave Navarro – Rexall (Ao Vivo no Conan O’Brien, 2001)

Trust No One é o único disco solo do Dave Navarro, um dos meus heróis da guitarra, membro fundador do Jane’s Addiction, guitarrista do Red Hot Chili Peppers por alguns anos e apresentador do Ink Master.

Lançado em 2001, o álbum possui uma forte carga emocional, com letras que abordam o casamento conturbado do músico com a atriz Carmen Electra, seu problema com as drogas e traumas do passado (como a perda da mãe quando ele ainda era uma criança).

O disco não teve uma forte divulgação e até hoje passa despercebido por muitos de seus admiradores. Por isso a surpresa ao encontrar uma apresentação ao vivo dele no talk show do Conan O’brien, no ano do lançamento do álbum. A música escolhida foi a faixa de abertura, “Rexall”.

A qualidade não está tão boa, assim como a performance do músico e sua banda, mas vale pela curiosidade e, de certa forma, como arquivo.

O próprio artista já disse em entrevistas que não pensa em se arriscar em outro projeto solo, por ser exaustivo. Tanto que poucos anos depois ele já estava novamente no Jane’s Addiction para o lançamento de Strays (2003). Mas Trust No One garante que Navarro teria capacidade de produzir mais materiais solo de qualidade, caso quisesse.

Garimpo · Música

Garimpo: Oasis e Stereophonics – I’m Only Sleeping (Beatles Cover, Ao Vivo, 2000)

Na virada do milênio, o tradicional canal de televisão britânico Channel 4 produziu um show em tributo à John Lennon, com a participação de vários artistas e celebridades, no palco e na platéia.

Uma das atrações foi a junção de parte do Oasis com Kelly Jones, vocalista do Stereophonics. Eles fizeram uma versão de um dos maiores clássicos da discografia dos Beatles, “I’m Only Sleeping”, do disco Revolver, de 1966.

A voz de Jones encaixou muito bem com a sensação de preguiça que a música passa, juntamente com os backing vocals do irmão Gallagher e o solo quebrado do baixo a cada fim de estrofe. Uma bela e justa homenagem.

Língua Presa · Música · Traduções

CAN – Disco “Live in Stuttgart 1975” Exemplifica a Espontaneidade e Impacto do Lendário Grupo Alemão

(Tradução livre do artigo de Daniel Dylan Wray, postado no blog do Bandcamp em onze de junho de 2021.)

“Com o CAN, havia sempre uma sensação de algo inacabado ou em construção, mas não perfeitamente polido, ainda mais nos shows ao vivo”, diz Irmin Schmidt, o único membro fundador remanescente da banda alemã de rock experimental.

Schmidt, 83 anos, está refletindo sobre o legado da banda, enquanto uma nova série de discos ao vivo é lançada, sendo o primeiro o Live In Stuttgart 1975. Composto por cinco faixas, com cada uma variando entre nove e trinta e cinco minutos, o álbum captura sete anos de existência da banda – já tendo passado dois vocalistas, Malcolm Mooney e Damo Suzuki, e agora operando como uma unidade instrumental feroz e hipnótica.

Misturando ritmos jazzísticos com riffs explosivos de rock psicodélico e grooves infinitos e imprevisíveis, a banda – que sempre tocou sets improvisados – tenta aproveitar tanto o caos quanto a coesão do álbum. “Quando ouço gravações antigas, se são boas, consigo ouvi-las como se tivessem sido criadas por outra pessoa”, diz Schmidt. “Não há nenhum tipo de sentimento ou nostalgia. Embora se eu ouvir algo que não deu certo e não for bom, sinto algo desconfortável, porque você pensa: ‘que merda’, e às vezes, se for muito ruim, rola uma vergonha.”

Não há nenhuma vergonha a ser descoberta em Live In Stuttgart 1975, ainda bem. É um documento gravado que captura de forma perfeita a dicotomia que tanto caracterizou o CAN, uma banda que poderia soar muito precisa ou amplamente expansiva, ambas com o mesmo fôlego. Vinda de Colônia e formada pelo quarteto principal Schmidt, Holger Czukay, Michael Karoli e Jaki Liebezeit, o grupo tinha uma vasta experiência. Schmidt estudou composição na Rheinische Musikschule, assim como Czukay, enquanto Liebezeit estava no free jazz europeu e Karoli era um multi-instrumentista que havia tocado em um monte de bandas antes. “Não éramos apenas um grupo de amigos”, diz Schmidt. “Alguns de nós nem se conhecia até o momento que juntei esse pessoal. Minha ideia para o grupo era que esses membros deveriam vir de tradições diferentes. Queríamos fazer um grupo onde todas essas partes pudessem existir por si mesmas.”

Não eram apenas as diversas bagagens musicais que fizeram do CAN um grupo diferenciado no início, mas a sua atitude. Eles tomaram um antigo cinema chamado Inner Space Studio e criaram seu próprio mundo para desaparecer. “A Alemanha já estava um pouco longe do desenvolvimento que acontecia em lugares como a Grã-Bretanha e América”, diz Schmidt. “Então havia uma sensação de isolamento, e também um certo senso de estar isolado de outros grupos alemães, porque uma banda pode estar em Berlim, outra em Hamburgo, mais outra em Munique. Não havia uma capital como Londres, onde todo mundo na cena se conhecia. O efeito que isso teve foi que nos tornamos eremitas, e isso se tornou algo bastante original. Não fomos expostos à uma influência diária de outras tendências, e isso foi algo consciente – não queríamos seguir nenhuma tendência.”

Durante a trajetória original da banda, entre 1968 e 1979, foram lançados onze álbuns. Mesmo que todos possuam momentos mágicos – do épico de vinte minutos “You Doo Right” (reduzidos de uma improvisação de seis horas) em seu disco de estreia ao inesperado hit disco “I Want More” (do álbum Flow Motion) – foram os quatro discos em sequência: Tago Mago, Ege Bamyasi, Future Days e Soon Over Babaluma que tornaram a banda uma referência em experimentação e inovação para muitos grupos. Embora classificados como uma banda de Krautrock junto com o Neu! e o Kraftwerk, esses grupos tinham poucas semelhanças em comum, a não ser a determinação em romper novos caminhos sonoros. O CAN fundiu rock, jazz avant-garde e psicodelia, sustentando-os em marcas suntuosas, criando um som que continua distinto ao ponto de ser inimitável.

Apesar do toque livre e despretensioso da banda, que os levou a evitar regras pré-estabelecidas, eles assumiram essa mente aberta com uma fortitude rigorosa e uma leal ética de trabalho, muitas vezes ensaiando por doze horas diárias. “Era tudo muito espontâneo no estúdio”, relembra Schmidt. “Ninguém entrava e dizia: tenho uma ideia para uma música. Isso não existia. Mas após um tempo, um groove ou um riff poderiam surgir e seriam o caminho para construir uma peça. Um certo riff pode te trazer ideias para centenas de possibilidades, mas ele estabelece uma regra. Então, quando tocávamos no estúdio, estávamos atrás da perfeição dessas regras. Era comum que aperfeiçoássemos um certo groove repetindo-o e repetindo-o, talvez por horas ou por dias, até termos a sensação de ‘é isso'”.

Esse processo era a arte em si tanto quanto, senão mais, do que o produto final, sugere Schmidt. “Você pode passar anos assim. Um dia você tem que dizer ‘ok, já é o bastante.’ Isso às vezes gerava uma discussão, porque Jaki era sempre convencido de que poderia melhorar. Ele gostaria de continuar. Mas no processo de aperfeiçoamento, isso poderia virar algo totalmente diferente. Você precisa ter o espírito do processo de criação. É algo bem misterioso, quando digo que não está realmente pronto. A essência dessa música que fizemos é sobre como existem milhares de possibilidades, e o caminho que você decide pegar não é para resultar em uma peça composta e perfeita, é sobre o processo de transformar isso tudo uma peça.”

O casamento da espontaneidade com a execução afiada, combinado com uma inovadora edição de fitas para condensar as sessões de gravação, resultou em alguns dos trabalhos mais surpreendentes do Can. “Faixas como ‘Future Days’ ou ‘Halleluwah’ são fortemente editadas a partir de várias horas de gravação”, diz Schmidt. “Embora, inicialmente, o Jaki sentisse que se poderia destruir o groove na edição, Holger e eu o educamos com as técnicas da Stockhausen, que editava fragmentos de milhares de pequenos trechos. Jaki fez suas pazes com a edição e crescemos como uma banda.”

Esse senso de fluidez continuou até o palco, com seus shows improvisados. Eles até brincavam com trechos das músicas favoritas do público, mas os enterravam profundamente com seus grooves pulsantes. Um show com os maiores sucessos nunca fora cogitado e era visto visto como um conceito absurdo; ao invés disso, as apresentações ao vivo existiam como uma extensão do processo criativo. “Íamos ao palco sem faixas prontas e criávamos músicas na hora, tornando tudo tão cheio de incertezas e fragmentos. Esse é o mistério da coisa, elas (as canções) foram criadas no momento de tocá-las. Claro, naquela hora você não pode ser um perfeccionista – a espontaneidade exclui a perfeição. Para mim, esse é o elemento de toda grande arte do século 20 – essa fatalidade iminente que a torna, de certa forma, inacabada.”

Image courtesy of Spoon.

E será que a plateia sempre tolerava os shows ao vivo que duravam por horas, e até por dois sets? “Eles percebiam logo de cara que estavam participando da criação de algo, de forma espontânea”, diz Schmidt. “Isso só é possível de se alcançar se a reação do público for de inclusão. Então, na maioria das vezes, mesmo que não funcionasse e não nos conectássemos, eles não agiam de forma agressiva ou com vaias. Eles tentavam ajudar no processo. Mesmo que o primeiro set fosse terrível, eles sempre estavam lá no segundo.”

O legado, impacto e influencia do CAN continua incalculável, moldando inúmeros artistas de múltiplas décadas – de Brian Eno ao The Fall, do Primal Scream ao LCD Soundsystem – mas como Schmidt enxerga isso? Ele se sente orgulhoso? “Orgulho não é a palavra certa”, diz ele calmamente. “Se você lança um trabalho artístico no mundo e ele existe cinquenta anos depois, é satisfatório. Significa que o que você fez foi válido. Por outro lado, existe um senso de que é algo natural, pois tive uma educação clássica. Desde cedo tenho ouvido músicas com centenas de anos de existência. Isso deve durar. Se for bom o bastante, dura.”

Direto do Forno · Música

Placebo – Surrounded By Spies (Single)

Parece que fantasmas do passado continuam a perseguir Brian Molko. Ou melhor, espiões.

Recheado de frases enigmáticas que remetem a conflitos de sua trajetória (“ex-drummer’s nose stuck in the past“, por exemplo), “Surrounded By Spies” é o segundo single do aguardado novo disco do Placebo, Nevet Let Me Go, previsto para março de 2022.

O nome do disco é um tanto quanto genérico, mas “Surrounded By Spies” captura bem a estética de um dos melhores momentos da banda, entre o Black Market Music (2000) e o Sleeping With Ghosts (2003).

Minha única implicância é com o visual do Brian Molko: pra que esse bigodinho?

Direto do Forno · Música

Failure – Headstand (Single)

Fui pego totalmente de surpresa pelo anúncio de Wild Type Droid, o próximo disco do Failure, anunciado pela própria banda na última semana. Será o sexto trabalho de estúdio deles. Mas o que não surpreendeu foi a qualidade do som.

O primeiro single já disponível é “Headstand” e caiu de imediato no meu coração. Melancólica e pesada na medida certa, ela lembra em vários momentos a “Another Space Song”, do Fantastic Planet, talvez o disco mais famoso dos caras, lançado em 1996.

Ali pela metade, a música dá uma quebrada e vira uma espécie de paisagem sonora de filmes pós-apocalípticos, criando uma ambientação que muito tem a ver com as temáticas do disco que citei no parágrafo anterior.

Em algumas audições, “Headstand” já virou uma das minhas favoritas do trio.

Crônicas · Língua Presa · Música

Airbag

É engraçado como nossa mente nos prega peças a todo instante e como é fácil cair em suas armadilhas.

Penso bastante em acidentes de carro, ainda mais quando estou dentro de um. Quando algum conhecido vai viajar, seja pelo ar ou estrada, imagino o veículo desfigurado, em colisão, despedaçado. É automático, não faço de propósito. Pode ser que o nome disso seja trauma, já que foi assim que perdi minha mãe.

Dia desses fui buscar minha tia fora da cidade com sua caminhonete, dessas de câmbio automático e que uma leve pisada no acelerador a faz quase voar. Assim que entrei no carro, imagens de acidente tomaram conta da minha cabeça. Cenas em que eu batia atrás de caminhões, de frente, atropelava cães, só tragédia. Aos poucos fui me adaptando àquele carro que não costumo dirigir, até que o domei. Peguei o jeito, senti confiança no volante e fui embora na maior adrenalina, acelerando sem medo, ultrapassando os caminhões (com prudência, óbvio), até chegar no destino.

Outra pessoa que também tem fixação por acidentes é o Thom Yorke. No catálogo do Radiohead, de bate pronto, lembro de duas músicas que falam sobre isso, “Airbag” e “Killer Cars”.

Isso me lembrou um texto que escrevi há alguns anos, chamado Gravidade, onde falei sobre a experiência de encarar o medo em um parque de diversões.

Encarar a si mesmo e superar. Ser um pouco melhor do que era há poucos segundos atrás. Não há sensação igual.

Direto do Forno · Música

Radiohead – Follow Me Around

“Follow Me Around” é a segunda música disponível da tão esperada coleção KID A MNESIA, do Radiohead, que sai do forno nessa semana. Ela foi lançada de forma oficial hoje.

Saíram duas versões: a de estúdio, acompanhada de um vídeo hilário estrelado por Guy Pearce, e outra ao vivo, durante a passagem de som de uma apresentação da banda no Japão, em 1998.

A música é inteira voz e violão e parece que a voz de Thom Yorke sai direto do céu, de tão bonita.

Garimpo · Língua Presa · Música

Radiohead – The National Anthem (Ao Vivo no Saturday Night Live, 2000)

Escrevi há poucos dias sobre o lançamento do KID A MNESIA, material que o Radiohead está preparando para comemorar as duas décadas do Kid A e do Amnesiac.

De forma mais precisa, hoje faz exatos vinte anos e um que o Kid A saiu do forno, e para presentear os fãs, saiu no canal do Saturday Night Live uma apresentação matadora da banda tocando “The National Anthem”, uma das melhores e mais enérgicas músicas do disco.

Se você acha a dancinha de Thom Yorke em “Lotus Flower” um tanto quanto estranha, veja essa apresentação. Thom está insano, totalmente tomado pela música, enquanto Ed O’Brien e Jonny Greenwood criam os efeitos mais hipnóticos possíveis, Colin Greenwood mantém a postura no andamento da canção e Phil Selway, o metrônomo ambulante, acompanha.

Diversos · Garimpo · Língua Presa · Música

Militando Na Contra-Informação

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/9/03/caderno_especial/2.html
(São Paulo, sábado, 3 de setembro de 1994)

Carlos Monforte – Os bancos estão aí preocupados com esse negócio da poupança?
Rubens Ricupero – Do compulsório? Mas tem que ser. Vai dar uma freada grande. Isso vai baixar, ainda que seja no cacete. Não estão dizendo que eu só ia fazer medidas duras depois da eleição? É isso. Estavam dizendo isso. Que era o Real 1 e o Real 2. Isso não é uma medida popular, não é? Eles (bancos) andaram fazendo umas manobras… Eles andaram com negócio de CDBs. Umas coisas assim. Eu não estou dizendo, mas você indaga lá no Banco Central que você vai descobrir que tem umas histórias assim.
Monforte – E o IPC-r, como é que está? Fica esse mesmo índice ou acaba com ele?
Ricupero – Agora em setembro ele cai, viu. Eu não vou dizer porque eu não quero anunciar, mas eu já sei a primeira quadrissemana do IPC-r já caiu muito.
Monforte – Então fala isso, então.
Ricupero – Não, é que nós não anunciamos antes, não dá para anunciar agora. Se não o pessoal do PT vai dizer que nós… Quem sabe a semana que vem. Mas vai cair.
Monforte – Mas por que o IPC-r deu essa loucura, essa derrapada?
Ricupero – Eles fizeram um tremendo erro metodológico. Eles botaram todo o aluguel de uma vez só. Inclusive o aluguel que tinha aumentado antes do período de junho. O Pastore fez uma entrevista mostrando isso lá em São Paulo, né? Mas é difícil, né? Porque se você mexesse vão dizer que estava manipulando. Há uma tese também, um grupo que diz que o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que divulgou o IPC-r) é um covil do PT.
Monforte – O que que é o covil?
Ricupero – O IBGE… Não sei se é verdade, mas tem gente que está convencido disso. O pessoal aqui diz que não, mas eu não excluo a hipótese de que tenha havido alguma (inaudível). Porque você veja, é o único que deu isso. Sou um pouco suspeitoso.
Monforte – Mas não adiantou nada, né? Até cresceu…
Ricupero – Não, não tá transmitindo, né?
Técnico – Caiu a linha
Monforte – É porque isso é por linha telefônica.
Ricupero – Ah, é telefônica.
Monforte – Qual é a correção de rumo que tem que fazer?
Ricupero – É isso que nós estamos fazendo. O que você pensa que é esse compulsório, pô?
Monforte – E isso é correção de rumo?
Ricupero – É uma freada, né? Tinha sinais de aquecimento. Aquecimento em geral.
Monforte – Os juros deram uma subida de novo.
Ricupero – Estava havendo aquela suspeita… Você sabe, é um pouco preventivo. É um pouco o que o eu disse: é uma freada no ônibus para rearrumar um pouco, quando o motorista diz assim “vrum”… aí todo mundo… para distribuir melhor a coisa. Havia sinais, né? Com essa história de IPC-r, reajuste, o pessoal querendo fazer greve. Então tem que dar uma pancada, né? E eu vou dar outra. Com o negócio da importação. Isso não é bricandeira não. Eu vou fazer um troço firme.
Monforte – Não é importação de carro, é importação de tudo?
Ricupero – Tudo. Eu estou cheio de reserva, pô. Pra mim é ótimo.
Monforte – Importação de quê, principalmente?
Ricupero – Tudo.
Monforte – Vai baixar tudo? Vai liberar tudo?
Ricupero – Não, tudo eu não digo, mas em grande… Tudo quanto é bem de consumo e tal. Fazer uma coisa grande.
Monforte – Bens de consumo o que é que é? Televisão, geladeira, esse negócio todo?
Ricupero – O que você menciona, tudo. Bens de consumo duráveis. Porque é o único jeito que você tem de garantir que não vai faltar produto, porque esses caras… Porque você está jogando aí com bandidos, você entende. É tudo bandido.
Monforte – Empresário brasileiro é dose.
Ricupero – Eu não vou dizer, mas você sabe. Eu conto sempre aquela história: a gente não ameaça, mas… Você conhece aquela história da máfia? Não se ameaça… Não se ameaça… Aquilo é que bom. Uma história boa que eu contei é aquela do mexicano motorista. Você conhece?
Monforte – Não.
Ricupero – O sujeito entra num círculo na hora do ‘rush’ em direção contrária. O cara lá do helicóptero, que está dirigindo um programa de rádio, diz, ‘cuidado, hay un loco circulando en dirección contrária’. Aí, o sujeito, ouvindo, diz assim: ‘No hay solo un loco. Hay miles de locos’ (risos).
Monforte – Bom, mas esse negócio do IPC-r baixando, eu acho que é importante falar.
Ricupero – Mas eu não tenho ainda. Ainda não dá. O pessoal me mata. Eu vou te prometer o seguinte: se eu conseguir convencer o pessoal aí, eu, segunda-feira… eu te dou a primazia (inaudível). Eu preciso conversar com eles, senão eles me matam. Esse pessoal tem toda aquela corporação de economista. É um troço complicado. Vão dizer: ‘Pô, você proibiu da vez anterior que era ruim, agora que é bom…’ No fundo é isso mesmo. Eu não tenho escrúpulos. O que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde.
Monforte – Uma curiosidade minha: você andou batendo no PSDB, dando umas porradinhas?
Ricupero – Depois eu parei, né? Era por causa do Franco (Gustavo Franco, diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central). Se eu não tivesse feito isso ele teria sido demitido. Toda vez que há um troço desses, para reequilibrar, porque começava vir o Tribunal Eleitoral… Não sei o quê… Para mostrar absoluta isenção eu dou um cacete nele. Foi isso que eu disse à “IstoÉ”: toda vez que tiver um troço desses eu dou um cacete. Se tiver uma declaração do PMDB, eu dou um cacete no PMDB. Se for do PT… O problema é que meus assessores são todos do PSDB. Tinha que ter alguém do PMDB aí. Eu tinha que fazer isso, viu Carlos. Porque, se não, ficam questionando a minha isenção. Eu não podia… Agora acalmou, né? Você viu, acalmou e tal. Ninguém mais falou no assunto. Essas coisas você tem que matar na hora. A única forma que eu posso provar o meu distancianciamento do PSDB é criticar o PSDB.
Monforte – …isso vai ser gravado em São Paulo… Nós estamos com o ‘link’ aberto… Porque entrou ao vivo… Nós estamos com o ‘link’ aberto. Daí, já grava direto. O problema é esse aqui (apontando com mão direita para o ponto eletrônico que usa no ouvido). Esse negócio da gasolina não é um pouco precipitado, não? Falar que pode baixar o preço e tal?
Ricupero – Isso eu falei para criar um pouco… Você sabe, está todo mundo falando do IPC-r aí…
Monforte – (interrompe Ricupero para conversar com a técnica sobre a qualidade do som)
Ricupero – (retomando a resposta sobre gasolina) Como eu estava te dizendo, com esse negócio afasta um pouco o clima de (inaudível). Eu faço essas coisas um pouco por instinto, sabe? De vez em quando armo uma confusão. Não tenha dúvida: esse país não é racional.
Monforte – Nem um pouco.
Ricupero – Dou um susto na Petrobrás… Aproveito para dar a eles firmeza para enfrentar reivindicação… Tem várias vantagens. Eu até gostaria de fazer. Se eu puder, eu faço.
Monforte – Na hora de responder, também responde curtinho como no ‘Jornal Nacional’ para a gente perguntar mais, né? Está ficando bom nisso, heim?
Ricupero – Estou. Depois a gente faz um programa junto quando eu sair do governo. Um programa de debate (risos).
Monforte – (volta a conversar com a técnica, tentando resolver o problema de áudio).
Ricupero – Se quiser, nesse fim-de-semana podia ver o negócio do ‘Fantástico’. Posso gravar também, se quiser alguma coisa, eu estou à disposição. Quem é que é? É o Alexandre?
Monforte – Não. O ‘Fantástico’ é a Nereide que cuida mais disso. Eu posso até falar com ela.
Riucpero – Pode falar, porque eu estou disponível. Eu vou ficar aqui o fim-de-semana inteiro. Porque eu acho bom. Porque nessa fase, meu caro, por causa do IPC-r, eu estou querendo, por isso é que eu resolvi ficar no ar o tempo todo. Então, o máximo que eu puder falar, eu falo.
(a transmissão fica fora do ar durante 12 segundos e aparece na tela a inscrição ‘Geração TV Globo Brasília’)
Ricupero – …Ele me telefonou outro dia. Queria me felicitar por causa do pronunciamento. Eu não estou preocupado com isso.
Monforte – E é Roma mesmo?
Ricupero – Para mim seria melhor, porque assim eu descanso e tal. Olha, muito entre nós, vai parecer presunçoso, o governo precisa muito mais de mim do que eu dele.
Monforte – Hoje, não tenho a menor dúvida.
Ricupero -Isso eu não diria para outra pessoa… Quando terminar tudo, se tudo der certo, o problema vai ser ele (FHC) explicar não me convidar.
Monforte – O quê?
Ricupero – Vai ser explicar não me convidar (risos). Você sabe, eu não digo isso, mas há inúmeras pessoas que me escrevem e que me procuram para dizer que votam nele (Fernando Henrique Cardoso) por causa minha. Aliás, ele sabe disso, né? Que o grande eleitor dele hoje sou eu. Por exemplo, para a Rede Globo foi um achado. Porque ela em vez de terem que dar apoio ostensivo a ele botam a mim no ar e ninguém pode dizer nada. Agora, o PT está começando… Mas não pode. Porque eu estou o tempo todo no ar e ninguém pode dizer nada. Não é verdade? Isso não ocorreu da outra vez. Essa é uma solução, digamos, indireta, né?
Monforte – Eu não tenho a menor dúvida que muita gente vai votar nele por (inaudível).
Ricupero – Eu ouço muita gente que não votaria nele por causa do PFL e que vai votar por causa de mim.
Monforte – (interrompe a conversa novamente para discutir problemas técnicos)
Técnico – Está indo via satélite, tá? Qualquer coisa que tiver falando aí, antena parabólica pega.
Monforte – Tudo bem. Está cheio de ruído. Está ouvindo isso?
Técnico – Está, todo mundo ouve.
Ricupero – Então, já pegaram.
(Monforte e Ricupero se olham e riem. Monforte recebe ligação em um telefone celular)
Monforte – Oi, Fala? Diga? Tá, tudo bem. Já estamos sabendo aqui. Então, tá, tchau (em seguida, dirige-se a Ricupero). Olha, é para não falar mais não porque está pegando toda a conversa na parabólica.
Ricupero – Deveriam ter avisado antes…