Crônicas · Língua Presa · Música

Airbag

É engraçado como nossa mente nos prega peças a todo instante e como é fácil cair em suas armadilhas.

Penso bastante em acidentes de carro, ainda mais quando estou dentro de um. Quando algum conhecido vai viajar, seja pelo ar ou estrada, imagino o veículo desfigurado, em colisão, despedaçado. É automático, não faço de propósito. Pode ser que o nome disso seja trauma, já que foi assim que perdi minha mãe.

Dia desses fui buscar minha tia fora da cidade com sua caminhonete, dessas de câmbio automático e que uma leve pisada no acelerador a faz quase voar. Assim que entrei no carro, imagens de acidente tomaram conta da minha cabeça. Cenas em que eu batia atrás de caminhões, de frente, atropelava cães, só tragédia. Aos poucos fui me adaptando àquele carro que não costumo dirigir, até que o domei. Peguei o jeito, senti confiança no volante e fui embora na maior adrenalina, acelerando sem medo, ultrapassando os caminhões (com prudência, óbvio), até chegar no destino.

Outra pessoa que também tem fixação por acidentes é o Thom Yorke. No catálogo do Radiohead, de bate pronto, lembro de duas músicas que falam sobre isso, “Airbag” e “Killer Cars”.

Isso me lembrou um texto que escrevi há alguns anos, chamado Gravidade, onde falei sobre a experiência de encarar o medo em um parque de diversões.

Encarar a si mesmo e superar. Ser um pouco melhor do que era há poucos segundos atrás. Não há sensação igual.

Crônicas · Música

Cadê As Guitarras, Radiohead?

‘OK Computer’, o mais conhecido e aclamado trabalho do Radiohead, completou 20 anos em 2017. Uma versão expandida chamada ‘OKNOTOK’ foi lançada, e claro, a mídia ficou a todo vapor. E não por menos, já que o álbum é considerado um dos melhores de todos os tempos.

E é aproveitando o hype (merecido) que surgiu nos últimos meses que resolvi fazer esse texto. Fiquei pensando o que se passa na cabeça de um artista ao atingir o tal “ápice” de sua criatividade. O correto seria manter a fórmula ou partir para um novo começo? No caso do Radiohead, a escolha foi a segunda opção.

‘Kid A’ chegou em 2000, 3 anos após o ‘OK Computer’, e novamente causou uma reviravolta na cultura pop mundial, com uma sonoridade totalmente nova. A idéia inicial da banda era fazer algo inverso ao que fora apresentado anteriormente, buscando fórmulas não-comerciais e não-convencionais tanto para a criação das músicas quanto para a divulgação do trabalho. A maior reviravolta, digamos assim, foi a ausência quase total de guitarras e/ou violões, que foram deixados de lado e deram lugar aos sintetizadores, baterias e ruídos eletrônicos, jazz, influências de krautrock e até música clássica. Para completar, não foi lançado nenhum single ou videoclipe para promover o disco. Mesmo com toda essa “aversão ao sucesso”, ‘Kid A’ vendeu milhões de cópias e foi muito bem recebido pela crítica.

“I slipped away,
I slipped on a little white lie.
We’ve got heads on sticks,
You’ve got ventriloquists staring at the shadows
At the edge of my bed.”

Saber mesclar em doses certas momentos de caos e estranheza com tranqüilidade e doçura foi peça fundamental para manter o equilíbrio e a qualidade do álbum. A dobradinha “The National Anthem/How To Disappear Completely”, por exemplo, leva o ouvinte de um total delírio sonoro a um espaço completo de paz e tristeza. Enquanto a primeira é levada por um baixo e bateria constantes que encontram um solo de instrumentos de sopro alucinados no final, a segunda diminui o clima e um violão acompanha os lamentos de Thom Yorke sobre a vida e a si mesmo.

Em seqüência, a bela faixa instrumental “Treefingers” mantém o clima de calmaria, como uma hipnose sonora. Porém, ao final, dá lugar a uma pancada de guitarras em “Optimistic” que, ironicamente (uma das poucas acompanhadas por guitarra/violão), considero a melhor do álbum. A estranha “Idioteque”, construída em cima de batidas eletrônicas indecifráveis e com uma letra igualmente enigmática, é outro ponto forte que se encontra no andamento do disco.

“Flies are buzzing round my head,
Vultures circling the dead,
Picking up every last crumb.
The big fish eat the little ones,
The big fish eat the little ones,
Not my problem, give me some.
You can try the best you can.
You can try the best you can?
The best you can is good enough.”

“Who’s in a bunker?
Who’s in a bunker?
Women and children first,
And the children first,
And the children…
(…)
Who’s in a bunker?
Who’s in a bunker?
I have seen too much,
I haven’t seen enough,
You haven’t seen it…”

Dos primeiros sons de “Everything In It’s Right Place” até o belo desfecho em “Motion Picture Soundtrack”, o Radiohead entrega um trabalho que serviria como base para suas experimentações futuras, que ficariam ainda mais claras em “Amnesiac” (2001) e que ganhariam uma encorpada ainda mais interessante em “In Rainbows” (2007).

Com o passar dos anos, o Radiohead foi adotando uma identidade de inovação a cada registro lançado, surpreendendo os ouvintes e conquistando cada vez mais fãs ao redor do planeta. Todo o entusiasmo em cima desses caras não é em vão.

*O Radiohead possui uma proteção f#d!d@ sobre suas músicas, por isso foi muito difícil encontrar as canções originais no Youtube. Mas nas plataformas digitais estão todas disponíveis.