Crônicas · Língua Presa · Música

Oeste Baiano Inglês

Hoje a cidade está dominada pela água, pela lama e pelas nuvens acinzentadas.

Uma chuva da porra no oeste baiano. Durou a noite inteira e parece estar mais forte agora pela manhã. A rua parece um rio, um rio de lama.

Tive que parar para abastecer, por isso atrasei para o trabalho. O cartão não passou, fiquei assustado e sem entender. Tem limite no crédito, mas mesmo assim não foi. Tive que passar no débito. Cem reais de gasolina. Nem quinze litros.

Quando tocou “Miss America” no carro, lembrei de Alta Fidelidade, do Nick Hornby. Aquele clima nebuloso inglês, onde a história se passa, combinou com a música. Fez mais sentido ainda porque li o livro em uma época nebulosa de minha vida. O que não faz sentido é eu associar o nebuloso com algo triste, já que dias nublados são perfeitos para mim.

Li em algum texto que ela é uma canção “Syd-Barrettiana”, algo assim, e isso também faz todo sentido. É só ouvir o The Madcap Laughs (1970).

Se o Blur quis homenagear os ingleses em Modern Life Is Rubbish (1993), em “Miss America” eles conseguiram representar um dos nomes mais importantes da história da música deles.

Um oeste baiano inglês. Quem diria.

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Final de Filme

Ontem à tarde eu e meu amigo Zé fomos levar o Pretinho para a casa nova dele. Dos nove filhotes que nasceram, ele era o mais querido, e até quem não gosta de cachorro, como o Zé, criou um certo apego nele. Ele era muito atentado, queria brincar o tempo todo, irritava seus pais e comia igual um leão.

No trajeto até seu novo lar, Pretinho conheceu a rua pela primeira vez. Observou os carros passando, as pessoas caminhando e o belo pôr-do-sol que essa cidade tem. No rádio do carro tocou “Someone Else’s Song”, do Wilco, uma canção só voz e violão com uma letra de amor boba, mas sincera, que fica ainda mais emocionante na voz de Jeff Tweedy.

Soma-se o contexto da adoção do Pretinho com a música e aquele momento ganhou um tom de despedida, uma emoção não nítida em nossas faces, mas que lá dentro ela ferveu. Pareceu uma cena final daqueles filmes onde tudo dá certo e as pessoas saem realizadas com um sorriso no rosto.

O Pretinho agora é Romeu e sua nova dona já até me mandou uma foto dele enrolado em um cobertor. Foram quarenta e cinco dias que ele, sem saber, alegrou a minha casa e a vida de alguns vizinhos, mesmo que por alguns poucos minutos.

Aquele pestinha vai longe.

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Essa tarde me senti em Encontros e Desencontros

Tem quase uma década que moro no oeste baiano e até hoje não digo que gosto daqui por completo. Longe disso. Sinto que não pertenço a esse lugar.

A essa hora, todos devem saber que o my bloody valentine assinou com a Domino Recordings e que há dois dias os discos da banda estão de volta ao streaming. Desde então, perdi as contas de quantas vezes ouvi o Loveless de cabo a rabo.

Precisei fazer uns corres para a empresa no final da tarde. Atravessei a cidade até o distrito industrial, e para isso, é preciso pegar a BR. Na direção do pôr do sol. A trilha sonora de todo o caminho foi o Loveless.

No instante que começou a tocar “Sometimes”, lembrei da cena de Encontros e Desencontros onde Charlotte e Bob voltam para o hotel de táxi, em uma madrugada movimentada de Tóquio.

Me senti como se estivesse no filme. A diferença é que Bob observava as luzes dos outdoors, postes, carros e tudo mais. Eu, ao contrário, tinha em frente somente a luz natural. Aquele céu gigantesco, que mesmo tão distante, parece conversar com quem o observa.

Eu não gosto daqui, mas admito: poucos lugares tem o pôr do sol tão belo quanto Luís Eduardo Magalhães.