Crônicas · Diversos · Língua Presa · Música

Final de Filme

Ontem à tarde eu e meu amigo Zé fomos levar o Pretinho para a casa nova dele. Dos nove filhotes que nasceram, ele era o mais querido, e até quem não gosta de cachorro, como o Zé, criou um certo apego nele. Ele era muito atentado, queria brincar o tempo todo, irritava seus pais e comia igual um leão.

No trajeto até seu novo lar, Pretinho conheceu a rua pela primeira vez. Observou os carros passando, as pessoas caminhando e o belo pôr-do-sol que essa cidade tem. No rádio do carro tocou “Someone Else’s Song”, do Wilco, uma canção só voz e violão com uma letra de amor boba, mas sincera, que fica ainda mais emocionante na voz de Jeff Tweedy.

Soma-se o contexto da adoção do Pretinho com a música e aquele momento ganhou um tom de despedida, uma emoção não nítida em nossas faces, mas que lá dentro ela ferveu. Pareceu uma cena final daqueles filmes onde tudo dá certo e as pessoas saem realizadas com um sorriso no rosto.

O Pretinho agora é Romeu e sua nova dona já até me mandou uma foto dele enrolado em um cobertor. Foram quarenta e cinco dias que ele, sem saber, alegrou a minha casa e a vida de alguns vizinhos, mesmo que por alguns poucos minutos.

Aquele pestinha vai longe.

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Essa tarde me senti em Encontros e Desencontros

Tem quase uma década que moro no oeste baiano e até hoje não digo que gosto daqui por completo. Longe disso. Sinto que não pertenço a esse lugar.

A essa hora, todos devem saber que o my bloody valentine assinou com a Domino Recordings e que há dois dias os discos da banda estão de volta ao streaming. Desde então, perdi as contas de quantas vezes ouvi o Loveless de cabo a rabo.

Precisei fazer uns corres para a empresa no final da tarde. Atravessei a cidade até o distrito industrial, e para isso, é preciso pegar a BR. Na direção do pôr do sol. A trilha sonora de todo o caminho foi o Loveless.

No instante que começou a tocar “Sometimes”, lembrei da cena de Encontros e Desencontros onde Charlotte e Bob voltam para o hotel de táxi, em uma madrugada movimentada de Tóquio.

Me senti como se estivesse no filme. A diferença é que Bob observava as luzes dos outdoors, postes, carros e tudo mais. Eu, ao contrário, tinha em frente somente a luz natural. Aquele céu gigantesco, que mesmo tão distante, parece conversar com quem o observa.

Eu não gosto daqui, mas admito: poucos lugares tem o pôr do sol tão belo quanto Luís Eduardo Magalhães.

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Uma coisa chamada exilado

(Texto que estava na gaveta há muito tempo e que, finalmente, resolvi terminar. Foi publicado no blog da Immagine na última sexta-feira. Link aqui.)

“E assim foi o ano de 1970: o Brasil virou tricampeão mundial e mesmo sem querer e nem entender direito, eu acabei virando uma coisa chamada exilado. Eu acho que exilado quer dizer ter um pai tão atrasado, mas tão atrasado, que nunca mais volta pra casa.”

Essa é a última fala de Mauro, personagem principal do filme “O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias”, dirigido por Cao Hamburger e lançado em 2007. O filme se passa na época do regime militar e conta a história de um menino apaixonado por futebol que é levado para a casa do avô em São Paulo, enquanto seus pais “saem de férias” por tempo indeterminado. Boa parte do filme mostra o choque de realidade de Mauro que tenta, aos poucos, aceitar e seguir em frente com a sua nova vida, se adaptando à nova cidade e às pessoas que passam a fazer parte de seu cotidiano, ao mesmo tempo em que busca respostas para o paradeiro de seus pais.

46 anos antes (e no mundo real), um artista brasileiro, que se encontrava praticamente na mesma situação do garoto Mauro, lançava o seu trabalho de maior destaque. “Transa”, de Caetano Veloso, tornou-se um marco na história da música nacional, atravessando barreiras tanto de idiomas quanto de musicalidade, expondo uma pessoa que sofria para buscar a sua identidade, ao mesmo tempo em que aceitava a sua condição de isolamento em relação à sua terra natal.

O “Caetano Exilado” já havia lançado um belo álbum autointitulado em 1971, marcado, principalmente, por canções calmas e melancólicas, que apontavam claramente para as feridas deixadas pela saudade do Brasil. Um ano depois, em “Transa”, o artista já estava mais maduro e, segundo o próprio, já começava a gostar de Londres e descobrir o que de melhor a capital inglesa poderia oferecer. Em seus passeios por Portobello Road, por exemplo, conheceu o reggae jamaicano e dessa experiência saiu a canção “Nine Out of Ten”, considerada a “entrada oficial” do reggae na música popular brasileira.

“I’m alive, vivo, muito vivo, vivo, vivo,
Feel the sound of music banging in my belly, belly, belly.
Know that one day I must die,
I’m alive.”

Gravado praticamente ao vivo e com apenas 7 faixas, o álbum traz uma forte mistura de idiomas e ritmos, indo do baião ao rock ‘n’ roll clássico, da poesia barroca brasileira ao inglês com sotaque nordestino, sem perder a elegância e a sutileza.

Prova maior disso é “Triste Bahia”, canção mais longa do disco. Caetano a inicia declamando versos do poeta Gregório de Matos, acompanhado por um dedilhado de violão “à la bossa nova” e, ao fundo, a percussão vai se incorporando até tomar conta de vez da canção, em uma crescente alucinante ao torno dos 9 minutos de duração. O casamento quase perfeito entre a música brasileira com ritmos africanos.

“Triste Bahia, oh, quão dessemelhante!
A ti tocou-te a máquina mercante.
Quem tua larga barra tem entrado,
A mim vem me trocando e tem trocado.
Tanto negócio e tanto negociante…”

Outras canções também se destacam no decorrer do trabalho, como a bela “Mora Na Filosofia” e a bilíngüe “It’s A Long Way”, ambas com arranjos muito bem estruturados que conseguem transitar facilmente entre a cultura pop e o experimentalismo natural das obras de Caetano Veloso.

“Se seu corpo ficasse marcado
Por lábios ou mãos carinhosas
Eu saberia, ora vai mulher,
A quantos você pertencia.
Não vou me preocupar em ver,
Seu caso não é de ver pra crer.
Ta na cara!”

 “Arrenego de quem diz
Que o nosso amor se acabou.
Ele agora está mais firme
Do que quando começou.” 

 Em entrevista ao portal “Gaúcha ZH”, Caetano afirma que havia a possibilidade de sua carreira decolar na terra da rainha, mas que não pensou duas vezes em voltar ao Brasil no instante em que teve a chance. O que parecia uma loucura, acabou tornando-se uma decisão acertada e toda a história dos bastidores só engrandece ainda mais a importância de “Transa” em sua vida.