Língua Presa · Música · Traduções

CAN – Disco “Live in Stuttgart 1975” Exemplifica a Espontaneidade e Impacto do Lendário Grupo Alemão

(Tradução livre do artigo de Daniel Dylan Wray, postado no blog do Bandcamp em onze de junho de 2021.)

“Com o CAN, havia sempre uma sensação de algo inacabado ou em construção, mas não perfeitamente polido, ainda mais nos shows ao vivo”, diz Irmin Schmidt, o único membro fundador remanescente da banda alemã de rock experimental.

Schmidt, 83 anos, está refletindo sobre o legado da banda, enquanto uma nova série de discos ao vivo é lançada, sendo o primeiro o Live In Stuttgart 1975. Composto por cinco faixas, com cada uma variando entre nove e trinta e cinco minutos, o álbum captura sete anos de existência da banda – já tendo passado dois vocalistas, Malcolm Mooney e Damo Suzuki, e agora operando como uma unidade instrumental feroz e hipnótica.

Misturando ritmos jazzísticos com riffs explosivos de rock psicodélico e grooves infinitos e imprevisíveis, a banda – que sempre tocou sets improvisados – tenta aproveitar tanto o caos quanto a coesão do álbum. “Quando ouço gravações antigas, se são boas, consigo ouvi-las como se tivessem sido criadas por outra pessoa”, diz Schmidt. “Não há nenhum tipo de sentimento ou nostalgia. Embora se eu ouvir algo que não deu certo e não for bom, sinto algo desconfortável, porque você pensa: ‘que merda’, e às vezes, se for muito ruim, rola uma vergonha.”

Não há nenhuma vergonha a ser descoberta em Live In Stuttgart 1975, ainda bem. É um documento gravado que captura de forma perfeita a dicotomia que tanto caracterizou o CAN, uma banda que poderia soar muito precisa ou amplamente expansiva, ambas com o mesmo fôlego. Vinda de Colônia e formada pelo quarteto principal Schmidt, Holger Czukay, Michael Karoli e Jaki Liebezeit, o grupo tinha uma vasta experiência. Schmidt estudou composição na Rheinische Musikschule, assim como Czukay, enquanto Liebezeit estava no free jazz europeu e Karoli era um multi-instrumentista que havia tocado em um monte de bandas antes. “Não éramos apenas um grupo de amigos”, diz Schmidt. “Alguns de nós nem se conhecia até o momento que juntei esse pessoal. Minha ideia para o grupo era que esses membros deveriam vir de tradições diferentes. Queríamos fazer um grupo onde todas essas partes pudessem existir por si mesmas.”

Não eram apenas as diversas bagagens musicais que fizeram do CAN um grupo diferenciado no início, mas a sua atitude. Eles tomaram um antigo cinema chamado Inner Space Studio e criaram seu próprio mundo para desaparecer. “A Alemanha já estava um pouco longe do desenvolvimento que acontecia em lugares como a Grã-Bretanha e América”, diz Schmidt. “Então havia uma sensação de isolamento, e também um certo senso de estar isolado de outros grupos alemães, porque uma banda pode estar em Berlim, outra em Hamburgo, mais outra em Munique. Não havia uma capital como Londres, onde todo mundo na cena se conhecia. O efeito que isso teve foi que nos tornamos eremitas, e isso se tornou algo bastante original. Não fomos expostos à uma influência diária de outras tendências, e isso foi algo consciente – não queríamos seguir nenhuma tendência.”

Durante a trajetória original da banda, entre 1968 e 1979, foram lançados onze álbuns. Mesmo que todos possuam momentos mágicos – do épico de vinte minutos “You Doo Right” (reduzidos de uma improvisação de seis horas) em seu disco de estreia ao inesperado hit disco “I Want More” (do álbum Flow Motion) – foram os quatro discos em sequência: Tago Mago, Ege Bamyasi, Future Days e Soon Over Babaluma que tornaram a banda uma referência em experimentação e inovação para muitos grupos. Embora classificados como uma banda de Krautrock junto com o Neu! e o Kraftwerk, esses grupos tinham poucas semelhanças em comum, a não ser a determinação em romper novos caminhos sonoros. O CAN fundiu rock, jazz avant-garde e psicodelia, sustentando-os em marcas suntuosas, criando um som que continua distinto ao ponto de ser inimitável.

Apesar do toque livre e despretensioso da banda, que os levou a evitar regras pré-estabelecidas, eles assumiram essa mente aberta com uma fortitude rigorosa e uma leal ética de trabalho, muitas vezes ensaiando por doze horas diárias. “Era tudo muito espontâneo no estúdio”, relembra Schmidt. “Ninguém entrava e dizia: tenho uma ideia para uma música. Isso não existia. Mas após um tempo, um groove ou um riff poderiam surgir e seriam o caminho para construir uma peça. Um certo riff pode te trazer ideias para centenas de possibilidades, mas ele estabelece uma regra. Então, quando tocávamos no estúdio, estávamos atrás da perfeição dessas regras. Era comum que aperfeiçoássemos um certo groove repetindo-o e repetindo-o, talvez por horas ou por dias, até termos a sensação de ‘é isso'”.

Esse processo era a arte em si tanto quanto, senão mais, do que o produto final, sugere Schmidt. “Você pode passar anos assim. Um dia você tem que dizer ‘ok, já é o bastante.’ Isso às vezes gerava uma discussão, porque Jaki era sempre convencido de que poderia melhorar. Ele gostaria de continuar. Mas no processo de aperfeiçoamento, isso poderia virar algo totalmente diferente. Você precisa ter o espírito do processo de criação. É algo bem misterioso, quando digo que não está realmente pronto. A essência dessa música que fizemos é sobre como existem milhares de possibilidades, e o caminho que você decide pegar não é para resultar em uma peça composta e perfeita, é sobre o processo de transformar isso tudo uma peça.”

O casamento da espontaneidade com a execução afiada, combinado com uma inovadora edição de fitas para condensar as sessões de gravação, resultou em alguns dos trabalhos mais surpreendentes do Can. “Faixas como ‘Future Days’ ou ‘Halleluwah’ são fortemente editadas a partir de várias horas de gravação”, diz Schmidt. “Embora, inicialmente, o Jaki sentisse que se poderia destruir o groove na edição, Holger e eu o educamos com as técnicas da Stockhausen, que editava fragmentos de milhares de pequenos trechos. Jaki fez suas pazes com a edição e crescemos como uma banda.”

Esse senso de fluidez continuou até o palco, com seus shows improvisados. Eles até brincavam com trechos das músicas favoritas do público, mas os enterravam profundamente com seus grooves pulsantes. Um show com os maiores sucessos nunca fora cogitado e era visto visto como um conceito absurdo; ao invés disso, as apresentações ao vivo existiam como uma extensão do processo criativo. “Íamos ao palco sem faixas prontas e criávamos músicas na hora, tornando tudo tão cheio de incertezas e fragmentos. Esse é o mistério da coisa, elas (as canções) foram criadas no momento de tocá-las. Claro, naquela hora você não pode ser um perfeccionista – a espontaneidade exclui a perfeição. Para mim, esse é o elemento de toda grande arte do século 20 – essa fatalidade iminente que a torna, de certa forma, inacabada.”

Image courtesy of Spoon.

E será que a plateia sempre tolerava os shows ao vivo que duravam por horas, e até por dois sets? “Eles percebiam logo de cara que estavam participando da criação de algo, de forma espontânea”, diz Schmidt. “Isso só é possível de se alcançar se a reação do público for de inclusão. Então, na maioria das vezes, mesmo que não funcionasse e não nos conectássemos, eles não agiam de forma agressiva ou com vaias. Eles tentavam ajudar no processo. Mesmo que o primeiro set fosse terrível, eles sempre estavam lá no segundo.”

O legado, impacto e influencia do CAN continua incalculável, moldando inúmeros artistas de múltiplas décadas – de Brian Eno ao The Fall, do Primal Scream ao LCD Soundsystem – mas como Schmidt enxerga isso? Ele se sente orgulhoso? “Orgulho não é a palavra certa”, diz ele calmamente. “Se você lança um trabalho artístico no mundo e ele existe cinquenta anos depois, é satisfatório. Significa que o que você fez foi válido. Por outro lado, existe um senso de que é algo natural, pois tive uma educação clássica. Desde cedo tenho ouvido músicas com centenas de anos de existência. Isso deve durar. Se for bom o bastante, dura.”

Direto do Forno · Música

Azymuth – As Curvas da Estrada de Santos/Zé e Paraná (Demos)

Parece não ter fim o baú de relíquias do Azymuth, e após o belo compilado Demos (1973​-​75) Volumes 1&2 lançado ano passado pela Far Out Recordings, o selo foi atrás de mais material caseiro do conjunto carioca.

O resultado dessa nova busca é o compacto As Curvas da Estrada de Santos/Zé e Paraná, sendo a primeira uma versão instrumental de uma canção da Jovem Guarda, enquanto a segunda é um samba-jazz hipnótico com um baixo que rouba a cena em seus minutos finais.

Agora, curioso mesmo é ver mais comentários de gringos do que brasileiros nos dois vídeos abaixo. Como custamos a dar o devido valor aos nossos artistas, hein?

Direto do Forno · Música

O novo do Iggy Pop: Free

A parceria com Josh Homme parece ter feito bem para a mente de Iggy Pop. Passados três anos desde Post Pop Depression, eis que chega ao mundo Free, seu décimo oitavo disco em carreira solo, com uma banda renovada e um estilo diferente.

As guitarras foram deixadas de lado e metais tornaram-se os fios condutores do álbum, uma semelhança com Blackstar, do David Bowie, que o ouvinte mais atento notará com facilidade. Além disso, o ar melancólico e meio noir traz uma faceta de Iggy que contrasta com sua figura selvagem e raivosa.

Após a abertura com a faixa-título, onde o artista escancara seu desejo de liberdade com um instrumental quase ambient, a trinca dançante happy-sad “Loves Missing”, “Sonali” e “James Bond” vem logo em seguida como o ponto mais alto do disco, sendo a última, talvez, uma das melhores canções de toda sua carreira.

Na segunda metade, o disco entra em uma espiral depressiva. A exagerada “Dirty Sanchez” não é tão atrativa, mas “Glow In The Dark” compensa em sequência. Para os fãs de poesia, “We Are The People”, com letra do Lou Reed, “Do Not Go Gentle Into That Good Night” (um poema de Dylan Thomas) e “The Dawn” são três peças de spoken word que finalizam o álbum de forma primorosa.

Com uma carreira de cinco décadas, Iggy Pop não precisa mais da aprovação de ninguém e pode fazer o que bem entender com sua música. Ele é livre, e tal liberdade nos brindou com um disco de alto nível. Como eu disse há alguns meses, que esse não seja o seu epitáfio, como Blackstar foi para seu amigo Bowie.

1. Free
2. Loves Missing
3. Sonali
4. James Bond
5. Dirty Sanchez
6. Glow in the Dark
7. Page
8. We Are the People
9. Do Not Go Gentle Into That Good Night
10. The Dawn

 

Crônicas · Diversos · Língua Presa · Música

No Limite

Um curto relato.

Aula de Matemática II. Estava usando o kit antissocial na universidade: roupa toda preta, postura desengonçada e fones de ouvido. “Edge of the World”, do Faith No More, tocava no celular.

Presente no clássico The Real Thing (1989), a canção possui uma levada jazzística e a voz de Patton, afiadíssima, proclama os versos que soam como um ritual sedutor entre um homem mais velho e uma jovem e bela mulher.

É daquelas músicas em que não se ouve parado. O corpo, desobediente, balança, a cabeça rodopia, os dedos estalam e os pés tocam um bumbo imaginário. Nesse estado, saí da sala em completo transe musical e fui ao banheiro urinar (deixa eu manter o palavreado moderado).

O resultado da situação, deixo ao leitor que conclua.

Direto do Forno · Música

A Estreia do The Quiet Temple

A introdução que fiz ao The Quiet Temple quando escrevi sobre o primeiro single do projeto serve muito bem como um resumo de todo o seu álbum de estreia, auto-intitulado:

“O estreante The Quiet Temple, por exemplo, tem a tag jazz como identificador em sua página. E num primeiro momento, sim, jazz caberia bem como um rótulo. No final dos quase oito minutos de “The Last Opium Den (On Earth)”, o primeiro single de seu disco de estreia, o ouvinte sabe que a fronteira vai muito mais além.”

Pelas variações de tempo, diversificação instrumental e alterações de clima, vejo uma clara influência do Talk Talk, principalmente de seu último disco, Laughing Stock, de 1991. Por coincidência (ou não), até o número de faixas é o mesmo.

Alguns desses resquícios permeiam na atmosfera jazzística de canções como “The Bible Black” e “Noah’s Theme”, com o sopro ao fundo aparecendo vez ou outra, acrescentando um charme na canção.

“Shades of Gemini”, a mais longa, tem em seu destaque o baixo regente, que possibilita o improviso e o experimento dos metais de forma caótica e hipnotizante. A partir dos seis minutos, o jogo musical ganha o acréscimo de uma guitarra-solo enfurecida, que chega a todo volume e torna a experiência ainda melhor. É a brisa matinal que toma forma até atingir o nível de um furacão.

O final também longo com “Utopia & Visions” transforma a euforia em uma construção mais cadenciada e quieta, mantendo uma constância tranquila até o seu desfecho.

Como o nome sugere, The Quiet Temple é um disco estranho para dias atuais, pois exige atenção para os mínimos toques e, principalmente, tempo, algo cada vez mais escasso na correria cotidiana. Serão necessárias, duas, três ou até mais audições para captar todos os detalhes do álbum, mas é um exercício que vale cada neurônio gasto.

1. The Last Opium Den (On Earth
2. The Bible Black
3. Shades Of Gemini
4. X Rated
5. Noah’s Theme
6. Utopia & Visions

Direto do Forno · Música

The Quiet Temple – The Last Opium Den (On Earth) (Single)

É comum jogar na esfera da “música experimental” qualquer trabalho que tem na sua construção um passeio pelas mais variadas formas e estéticas sonoras, seja para agrupar um seleto conjunto de artistas, para identificar um coletivo ou apenas para tentar explicar aquilo que se ouve. Porém, ao analisar atentamente, questiono: qual música hoje em dia não é feita de experimentos?

O estreante The Quiet Temple, por exemplo, tem a tag jazz como identificador em sua página. E num primeiro momento, sim, jazz caberia bem como um rótulo. No final dos quase oito minutos de “The Last Opium Den (On Earth)”, o primeiro single de seu disco de estreia, o ouvinte sabe que a fronteira vai muito mais além.

O próprio Rich Machin, um dos cabeças do projeto, analisa o disco como um híbrido de jazz, krautrock e Velvet Underground, mas as influências são infinitas. Eu, por exemplo, colocaria também a ambiência do post-rock nesse liquidificador.

Independente disso tudo, o que importa é a qualidade. Palmas para o The Quiet Temple.

O disco completo, homônimo, será lançado pela Wichita Recordings em 05 de julho desse ano.

Diversos · Língua Presa · Música

Adeus, Mark Hollis

O Talk Talk nasceu em Londres, no ano de 1981, em meio à febre do synthpop, onde os sintetizadores eram os principais regentes das canções. (Bandas como o A-ha, Eurythmics, Soft Cell e Tears For Fears são ótimos exemplos do estilo.)

Formada por Mark Hollis (guitarra, piano e voz), Lee Harris (bateria) e Paul Webb (baixista) e embarcando nessa onda, o sucesso veio rápido, com alguns singles estourando em vários países ao longo da Europa. No terceiro disco, The Colour of Spring, as mudanças começaram. As melodias ficaram mais complexas e as letras de Hollis mais reflexivas, o que não impediu o estouro de músicas como “Like’s What You Make It” e “Living In Another World”, por exemplo.

A partir de Spirit of Eden, de 1988, a casa caiu de vez. Trocando os sintetizadores e melodias pop por longos improvisos jazzísticos e experimentações sonoras com camadas e atmosferas mais sombrias, o Talk Talk atingiu o ápice de sua criatividade, principalmente no álbum seguinte, o quinto e último da discografia da banda: Laughing Stock, lançado em 1991. Poucos meses depois, a banda encerrou suas atividades.

Sobre as vendas, foram decepcionantes se comparadas aos trabalhos anteriores. Porém, isso é o de menos. Os dois discos são considerados precursores do que conhecemos hoje como post-rock (junto ao Spiderland, do Slint) e citados como dois dos maiores álbuns lançados durante aquele período.

Em 1998, Mark Hollis aventurou-se em uma carreira solo e lançou um único disco auto-intitulado. Foi seu último trabalho antes de se aposentar da indústria da música.

Há pouco menos de dois meses, em 25 de fevereiro e aos 64 anos, Hollis veio a óbito.

Se eu fizesse uma lista com os dez melhores discos que já ouvi até hoje, sem dúvida alguma, Laughing Stock estaria na primeira metade.

Música

Heart-Shaped Tracks – A Soulful Tribute to Nirvana’s In Utero

Por minhas leituras diárias no blog do Marcelo Costa, o Scream & Yell, me deparei com um disco-tributo diferente do que estou habituado a ver por aí. O nome do trabalho é “A Soulful Tribute to Nirvana’s In Utero” e traz versões das músicas nos mais diversos estilos, passeando pelo soul, jazz, R&B e chegando até o trip hop.

Na primeira audição, fiquei bem surpreso. O início de “Serve the Servants” já clareou minha mente para o que estava por vir. Com certeza, seria algo bem fora da minha zona de conforto, afinal, sou admirador confesso e profundo do disco, e precisava expandir minhas ideias para compreender essas releituras. Porém, à medida que o disco seguia, ficava mais fácil separar a surpresa/espanto inicial pela compreensão e admiração pelo “novo”. As letras permaneceram, mas se tornaram músicas bem diferentes.

Confesso que algumas não me cativaram nem um pouco, caso de “Dumb” e “Radio Friendly Unit Shifter”, porém, o desagrado é mínimo perante o resultado das versões de “Francis Farmer…”, “Serve The Servants” e “Milk It”, por exemplo, os pontos altos do tributo e que ficaram muito boas em suas novas interpretações. “All Apologies” ganhou um tempero ainda mais dramático do que a original, mais lenta e melancólica, finalizando de forma positiva o disco.

Deixei aqui as minhas impressões, porém, seria interessante ao leitor dar uma olhada na matéria principal, o chamado “faixa a faixa”, detalhando e dissecando música por música, além de um texto introdutório bem esclarecedor sobre o projeto. O link está aqui.