Crônicas · Língua Presa · Música

Airbag

É engraçado como nossa mente nos prega peças a todo instante e como é fácil cair em suas armadilhas.

Penso bastante em acidentes de carro, ainda mais quando estou dentro de um. Quando algum conhecido vai viajar, seja pelo ar ou estrada, imagino o veículo desfigurado, em colisão, despedaçado. É automático, não faço de propósito. Pode ser que o nome disso seja trauma, já que foi assim que perdi minha mãe.

Dia desses fui buscar minha tia fora da cidade com sua caminhonete, dessas de câmbio automático e que uma leve pisada no acelerador a faz quase voar. Assim que entrei no carro, imagens de acidente tomaram conta da minha cabeça. Cenas em que eu batia atrás de caminhões, de frente, atropelava cães, só tragédia. Aos poucos fui me adaptando àquele carro que não costumo dirigir, até que o domei. Peguei o jeito, senti confiança no volante e fui embora na maior adrenalina, acelerando sem medo, ultrapassando os caminhões (com prudência, óbvio), até chegar no destino.

Outra pessoa que também tem fixação por acidentes é o Thom Yorke. No catálogo do Radiohead, de bate pronto, lembro de duas músicas que falam sobre isso, “Airbag” e “Killer Cars”.

Isso me lembrou um texto que escrevi há alguns anos, chamado Gravidade, onde falei sobre a experiência de encarar o medo em um parque de diversões.

Encarar a si mesmo e superar. Ser um pouco melhor do que era há poucos segundos atrás. Não há sensação igual.

Música · Quarta Parede

Carros Assassinos

Foi numa madrugada de segunda para terça, se não me engano, quando estava zapeando pela SKY, sem sono, e dei a sorte de pegar o Crash – Estranhos Prazeres (1996), do David Cronenberg, logo em seu início, ainda nas apresentações de elenco e equipe técnica. Sem dúvida alguma, é o filme mais bizarro que já assisti até hoje.

Cenas de sexo. Carros. Acidentes de carro. Cenas de pessoas fazendo sexo em carros acidentados. É basicamente isso. Não é um filme ruim, a experiência em assisti-lo foi interessante. A trilha sonora dá um ar de mistério ao filme, os personagens são charmosos e enigmáticos e tem algo nas cores dele que mexeu comigo, mas a história em si e o modo em que ela é contada é um pouco sem pé nem cabeça.

Alguns dias depois, lembrei que o Radiohead tem duas canções que se assemelham a um dos temas do filme: acidentes de carro. São elas “Airbag” (uma das minhas favoritas de toda a discografia deles) e “Killer Cars”, um b-side do The Bends, época que a banda ainda usava umas guitarrinhas distorcidas.