Língua Presa · Quarta Parede

Abertura de Gummo

Algumas experiências cinematográficas não demandam explicação, elas apenas são sentidas. Foi o caso de Gummo, quando vi esse trecho pela primeira vez.

Gummo é um drama experimental de 1997, dirigido por Harmony Korine, o mesmo cara que escreveu o roteiro do Kids (1995). A história se passa em Xenia, estado de Ohio, uma cidade tão cinzenta quanto a mente de seus habitantes. Suicídio, dependência química e abusos mentais/sexuais são alguns dos temas abordados de forma crua e realista, o que pode ser perturbador e chocante para alguns espectadores. Ao meu ver, isso só engrandece o brilhantismo de Harmony Korine na condução do filme.

Logo de cara, na abertura, somos apresentados ao garoto-coelho, um dos personagens mais marcantes. A musiquinha alegre contrasta diretamente com o olhar vazio do garoto, que joga um pouco de tempo fora em uma passarela durante um dia chuvoso. Ele chuta lixo, cospe e faz xixi nos carros lá embaixo, quebra a quarta parede olhando direto para a câmera, enquanto congela de frio.

A carga emocional do filme é pesada, com cenas que nos fazem questionar o que é certo e o que é errado. Mas nesse pequeno pedaço, por um instante, a doce melancolia do garoto-coelho é capaz de tocar quem assiste de uma maneira um pouco mais leve.

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